A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que começa nesta terça-feira (16), ocorre em meio a uma divisão crescente entre economistas e investidores sobre os próximos passos da taxa Selic. Enquanto parte do mercado ainda aposta em um corte de 0,25 ponto percentual, levando os juros para 14,25% ao ano, outra parcela acredita que o Banco Central deverá interromper temporariamente o ciclo de flexibilização diante da persistência da inflação e das incertezas no cenário global.
Para a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), porém, a discussão sobre um eventual corte ou manutenção dos juros acaba desviando a atenção do principal problema da economia brasileira: o desequilíbrio das contas públicas.
A entidade avalia que o Banco Central opera com espaço reduzido para conduzir a política monetária em razão da expansão dos gastos públicos e do aumento da dívida do governo. Nesse contexto, a Selic seria mais uma consequência das condições fiscais do que a origem dos problemas econômicos.
O debate ocorre poucos dias após a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio. O indicador acumulado em 12 meses atingiu 4,72%, permanecendo acima do teto da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.
Segundo a FecomercioSP, a deterioração fiscal ajuda a explicar a dificuldade de convergência da inflação. A entidade destaca que a dívida pública brasileira já corresponde a cerca de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e pode alcançar 83,6% ainda neste ano, de acordo com projeções do Tesouro Nacional.
Os números de longo prazo também preocupam. Estimativas do Instituto Fiscal Independente (IFI), ligado ao Senado Federal, apontam que a dívida pública poderá atingir 117,7% do PIB em 2035 caso não haja mudanças estruturais na trajetória das contas públicas.
A federação ressalta ainda que o custo financeiro dessa dívida tem crescido rapidamente. Em 2025, os gastos com juros ultrapassaram R$ 1 trilhão pela primeira vez, valor superior à soma dos orçamentos federais destinados às áreas de saúde e educação.
Na avaliação da entidade, o aumento dos gastos públicos injeta recursos na economia, sustenta a demanda e dificulta o trabalho do Banco Central no combate à inflação. Como resultado, os juros precisam permanecer elevados por mais tempo para compensar os estímulos fiscais e conter a pressão sobre os preços.
O impacto também alcança as famílias. Dados citados pela FecomercioSP mostram que aproximadamente 29,3% do orçamento familiar está comprometido com dívidas, enquanto a inadimplência segue em patamares historicamente elevados.
O setor de serviços aparece como um dos principais desafios para a política monetária. Responsável por cerca de 60% da composição do IPCA, o segmento continua pressionado pela demanda aquecida. Embora juros elevados tenham efeito mais direto sobre bens industriais e parte dos alimentos, a transmissão para os preços de serviços costuma ocorrer de forma mais lenta.
Para a federação, a solução passa por um ajuste fiscal estrutural capaz de reduzir o ritmo de crescimento das despesas públicas. A entidade defende reformas que contenham gastos obrigatórios e reforcem a sustentabilidade das contas públicas, criando condições para uma redução mais consistente dos juros no futuro.
Enquanto esse processo não avança, a avaliação é de que o Banco Central continuará atuando de forma reativa, ajustando a Selic conforme a evolução das pressões inflacionárias e do cenário fiscal, sem conseguir promover um ciclo mais amplo e duradouro de queda dos juros.









