O início do ciclo de redução da Selic não alterou a preferência dos principais bancos e corretoras pela renda fixa. Pelo contrário. Com os juros reais ainda próximos das máximas dos últimos anos, instituições financeiras reforçaram as recomendações para títulos indexados à inflação, crédito privado e papéis pós-fixados, avaliando que o atual ambiente ainda oferece oportunidades para travar retornos elevados antes de um eventual recuo mais consistente das taxas.
Embora o Comitê de Política Monetária (Copom) tenha reduzido a Selic para 14,25% ao ano em junho, a curva de juros continua pressionada pelas expectativas de inflação e pelas incertezas fiscais. Como reflexo, a taxa da NTN-B 2035, referência para os juros reais de longo prazo, avançou de 7,72% no fim de maio para 8,14% em junho, patamar que não era observado desde a crise financeira global de 2008.
Nesse contexto, a maior parte das recomendações concentra-se nos títulos atrelados ao IPCA. A estratégia é aproveitar juros reais próximos ou superiores a 7% ao ano, acrescidos da inflação, garantindo remuneração elevada para investidores dispostos a carregar os papéis até o vencimento e suportar a volatilidade decorrente da marcação a mercado.
Entre as principais indicações está a debênture incentivada da Ecovias Raposo Castelo (CERT11), que remunera IPCA mais 8,15% ao ano. O papel conta com garantia da Ecorodovias Concessões e, por ser isento de Imposto de Renda, entrega retorno equivalente a aproximadamente IPCA mais 10,23% em um título tributado. A XP destaca o perfil resiliente do setor de concessões rodoviárias e a geração recorrente de caixa como fatores favoráveis ao investimento.
Outra recomendação recorrente é a debênture da Energisa (ENGIB9), que oferece remuneração de IPCA mais 7,55%. Os analistas destacam a previsibilidade das receitas das distribuidoras de energia elétrica, cuja remuneração é regulada e reajustada periodicamente pela inflação.
Também aparecem entre as principais escolhas a debênture da Sabesp (SBSPI8), pagando IPCA mais 7,05%, sustentada pela liderança da companhia no setor de saneamento e pelas expectativas de criação de valor após a privatização, além dos papéis da Equatorial Goiás, recomendados simultaneamente por BB Investimentos e BTG Pactual. A tese para a companhia combina a garantia da holding Equatorial Energia com o processo de recuperação operacional da distribuidora.
Para investidores que preferem eliminar o risco de crédito privado, a XP mantém entre suas principais indicações o Tesouro IPCA+ 2035 (NTN-B Principal), que remunera IPCA mais 7,39% ao ano. Como título público federal, o papel possui risco soberano e concentra toda a rentabilidade no vencimento, sem pagamento de cupons semestrais.
O BB Investimentos também incluiu na seleção a debênture incentivada da Klabin (KLBNA5), ampliando a exposição para o setor de papel e celulose. A recomendação leva em consideração a posição de liderança da companhia no mercado brasileiro e seu perfil de geração de caixa.
Os títulos prefixados aparecem em menor proporção nas recomendações, refletindo a cautela das instituições diante da volatilidade da curva de juros. Ainda assim, algumas oportunidades seguem presentes para investidores que acreditam em uma queda mais intensa das taxas nos próximos anos.
Entre elas está o CDB do Banco C6, que oferece remuneração de 14,80% ao ano, com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Os analistas também destacam a participação do JPMorgan como acionista minoritário da instituição financeira. Outra alternativa é a debênture incentivada da Coelba (CEEBD1), garantida pela Neoenergia, que remunera 13,50% ao ano na modalidade prefixada e, por ser isenta de Imposto de Renda, equivale a aproximadamente 15,17% em um título sujeito à tributação.
Mesmo com o início do ciclo de flexibilização monetária, os títulos pós-fixados continuam ocupando espaço importante nas carteiras recomendadas, principalmente para reserva de liquidez e gestão de caixa. A XP mantém o Tesouro Selic 2029 como principal indicação para esse objetivo, já que o papel acompanha a taxa básica de juros e apresenta baixa volatilidade.
Entre os produtos bancários, ganha destaque o CDB do PicPay, que remunera 104,5% do CDI e também conta com cobertura do FGC, oferecendo um pequeno prêmio sobre aplicações tradicionais atreladas ao CDI.
No segmento de crédito privado, o BTG Pactual reforçou suas recomendações com dois Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), emitidos pelas companhias 3tentos e SLC Agrícola, ambos indexados ao CDI. Já a XP passou a incluir fundos de crédito privado em sua carteira recomendada, como Selection RF Light, SulAmérica Crédito Ativo, JGP Corporate e Riza Statheros, alternativa voltada principalmente aos investidores que buscam maior diversificação sem necessidade de adquirir diversos títulos individualmente.
Na avaliação das principais instituições financeiras, o atual ambiente de juros elevados continua favorecendo estratégias de renda fixa, especialmente em ativos que combinam remuneração elevada, proteção contra a inflação e boa qualidade de crédito, enquanto a trajetória futura da política monetária permanece cercada por incertezas.










