A Polícia Federal e o Ministério Público Federal deflagraram, nesta quinta-feira, a segunda fase da Operação Disclosure, que aprofunda as investigações sobre o escândalo contábil envolvendo a Americanas. A ação tem como foco supostas fraudes estimadas em R$ 54 bilhões e mira ex-conselheiros, executivos da companhia e representantes de grandes instituições financeiras. Ao todo, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Além das buscas, a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o sequestro de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões. Segundo a Polícia Federal, a medida busca preservar eventual ressarcimento de prejuízos decorrentes das irregularidades investigadas.
A nova etapa da operação foi construída a partir de três acordos de colaboração premiada firmados pelos ex-diretores Marcelo Nunes, Fábio Abrate e Flávia Carneiro, além da análise de documentos obtidos com a quebra de sigilo de dados da Americanas e de depoimentos colhidos ao longo dos últimos dois anos pela PF e pelo MPF.
De acordo com os investigadores, nove pessoas são suspeitas de terem conhecimento ou participação em um conjunto de práticas relacionadas às fraudes contábeis que marcaram o caso Americanas. As apurações apontam irregularidades envolvendo operações de risco sacado e contratos de Verba de Propaganda Cooperada (VPC), que teriam sido registrados sem lastro econômico nas demonstrações financeiras da companhia.
Entre os alvos da operação estão Carlos Alberto Sicupira, um dos acionistas de referência da Americanas; Paulo Alberto Lemann, ex-integrante do conselho de administração e filho de Jorge Paulo Lemann; Eduardo Saggioro, integrante do conselho da companhia; José Rudge e Gustavo Balassiano, ligados ao Itaú; Carlos Henrique Villela Pedras, vinculado ao Bradesco; Sergio Rial, ex-presidente do Santander Brasil e ex-CEO da Americanas; além de André Almeida e Alexandre Abdo, também ligados ao Santander.
Segundo a Polícia Federal, as investigações identificaram um segundo núcleo de irregularidades que teria sido estruturado especificamente para influenciar a percepção dos investidores sobre a situação financeira da empresa. Diferentemente das fraudes contábeis que afetavam diretamente os resultados financeiros, esse conjunto de manobras teria como objetivo alterar indicadores utilizados pelo mercado para avaliar a companhia, influenciando a formação do preço das ações sem modificar o lucro líquido oficialmente divulgado.
Na avaliação dos investigadores, essas práticas podem caracterizar crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. A Polícia Federal sustenta que os mecanismos adotados buscavam transmitir uma imagem financeira mais favorável da empresa, preservando sua atratividade perante investidores e participantes do mercado de capitais.
A segunda fase da Operação Disclosure amplia uma das maiores investigações já conduzidas sobre fraudes corporativas no Brasil. O rombo contábil revelado pela Americanas, em janeiro de 2023, desencadeou uma série de investigações criminais, administrativas e cíveis, além de um amplo processo de recuperação judicial que permanece em andamento.










