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EUA recompram Treasuries e acendem alerta sobre dívida de US$ 40 tri

Recompra de títulos dos EUA começa em 9 de setembro e reduz pressão sobre Treasuries de 10 anos

A decisão do Tesouro dos Estados Unidos de recomprar títulos de longo prazo trouxe alívio imediato ao mercado de Treasuries, mas não elimina as pressões relacionadas ao crescimento da dívida pública americana e ao aumento do custo de refinanciamento. A avaliação é de Sara Paixão, analista de Macroeconomia da InvestSmart XP.

O programa anunciado nesta semana envolve títulos com vencimentos entre 10 e 30 anos e começará efetivamente em 9 de setembro. A iniciativa busca ampliar a liquidez do mercado em um período no qual os rendimentos dos papéis de longo prazo alcançaram os maiores níveis desde 2007.

Segundo Paixão, o anúncio teve reflexo rápido sobre os juros. O rendimento do Treasury de dez anos, que estava em 4,71% antes da intervenção, recuou para 4,64%. O movimento também pressionou o dólar diante de outras moedas e aumentou a atratividade relativa de ativos como commodities metálicas e criptoativos.

O efeito sobre as taxas, porém, representa apenas uma parte da equação. A analista chama atenção para o tamanho do endividamento americano, que chegou a aproximadamente US$ 40 trilhões, e para a necessidade de refinanciar esse estoque em condições financeiras diferentes das observadas durante boa parte das últimas décadas.

Durante um período prolongado, os Estados Unidos conviveram com taxas de juros próximas de 0% a 2% ao ano. Com os juros atualmente em níveis mais elevados, a renovação dos vencimentos da dívida passa a representar uma despesa maior para o governo americano.

Outro ponto observado pelo mercado é a forma como o Tesouro financiará a recompra dos papéis mais longos. A operação exige recursos e pode ser acompanhada por novas emissões. Caso o financiamento se concentre em títulos de vencimento mais curto, a composição da dívida poderá mudar.

Nesse cenário, o prazo médio do endividamento diminui e uma parcela maior da dívida precisa ser refinanciada em intervalos menores. A consequência é uma exposição mais direta das despesas financeiras do governo às oscilações dos juros de curto prazo determinados pela política monetária do Federal Reserve.

Essa dinâmica ganha importância diante das incertezas sobre a trajetória da inflação americana. Paixão destaca que parte do mercado considera a possibilidade de manutenção de uma política monetária restritiva por um período mais longo e até novas elevações das taxas caso as pressões inflacionárias persistam.

Mesmo sem novos aumentos, a permanência dos juros em níveis elevados já aumenta o risco associado ao refinanciamento da dívida. Quanto maior a parcela do estoque que precisa ser renovada nessas condições, maior tende a ser a despesa financeira do governo.

Para a analista, portanto, a recompra pode melhorar o funcionamento do mercado e reduzir pontualmente os rendimentos dos Treasuries longos, mas não modifica os fatores estruturais responsáveis pela elevação do prêmio exigido pelos investidores.

Entre eles está o próprio crescimento da dívida americana. Um estoque próximo de US$ 40 trilhões exige volumes elevados de financiamento e refinanciamento, enquanto investidores avaliam o retorno oferecido pelos títulos públicos diante de outras alternativas disponíveis no mercado.

A concorrência por capital também aumentou com as emissões realizadas por grandes empresas de tecnologia. Esses papéis corporativos passam a disputar recursos nas carteiras dos investidores com os Treasuries, ampliando as alternativas de alocação no mercado de renda fixa.

Paixão compara essa dinâmica, guardadas as diferenças entre os mercados, à disputa observada no Brasil entre títulos públicos e determinados instrumentos de crédito privado com vantagens tributárias. Quanto maior a oferta de alternativas consideradas competitivas, maior pode ser a necessidade de os emissores oferecerem retornos capazes de atrair os investidores.

O comportamento dos investidores japoneses acrescenta outro componente à discussão. O Japão está entre os principais detentores estrangeiros de Treasuries. Com a elevação dos juros domésticos japoneses, ativos locais passam a oferecer retornos mais competitivos, o que pode reduzir parte do incentivo para a manutenção de recursos em títulos americanos.

Os efeitos também chegam aos mercados emergentes. No Brasil, o anúncio contribuiu para aliviar a curva de juros, segundo a analista. A queda dos rendimentos dos Treasuries de longo prazo reduz a pressão exercida pelos títulos americanos sobre outras classes de ativos.

Quando os juros de longo prazo nos Estados Unidos recuam e a liquidez internacional aumenta, ativos de economias emergentes podem ganhar atratividade relativa. Esse movimento pode favorecer, no curto prazo, mercados como o brasileiro, embora a evolução da dívida americana, da inflação e das decisões do Federal Reserve continue determinante para as condições financeiras globais.

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