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Taxas menores não resolvem crise dos multimercados, dizem analistas

Especialistas avaliam que reduzir taxas não basta para recuperar multimercados, que acumulam R$ 672 bilhões em resgates desde 2022

A redução das taxas cobradas pelos fundos multimercados pode diminuir o custo suportado pelo investidor, mas dificilmente será suficiente para reverter a crise enfrentada pela categoria. Para especialistas do mercado, o problema central está na dificuldade de entregar retornos consistentes acima do CDI e na necessidade de revisar estratégias que perderam capacidade de diferenciação nos últimos anos.

A discussão ganhou espaço depois que grandes gestoras começaram a alterar o modelo tradicional de cobrança conhecido como “2 com 20”, composto por taxa de administração de 2% ao ano e taxa de performance de 20% sobre os ganhos que excedem o índice de referência.

O movimento ocorre enquanto os multimercados atravessam um período prolongado de retiradas. Entre janeiro e julho deste ano, a categoria registrou resgates líquidos de R$ 12,2 bilhões. Desde 2022, as saídas acumuladas chegam a R$ 672 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Para os analistas, os números mostram que a discussão sobre taxas é consequência de uma questão mais ampla: o investidor passou a comparar o retorno líquido dos multimercados com alternativas mais simples e baratas, especialmente em um ambiente no qual o CDI permanece elevado.

Christopher Galvão, analista de fundos da Nord, avalia que o custo se torna mais difícil de justificar quando a gestão ativa não consegue produzir retorno suficiente para compensá-lo.

“Quando olha para outras alternativas mais baratas, o investidor passa a questionar esse custo”, afirma Galvão.

A concorrência aumentou com a expansão de produtos como ETFs, que permitem exposição a diferentes estratégias com taxas que podem variar de aproximadamente 0,15% a 0,80%. Ao mesmo tempo, a renda fixa brasileira passou a oferecer retornos elevados com menor complexidade para o investidor.

Na avaliação de Galvão, o problema não estaria necessariamente na existência da taxa de administração ou de performance. Se os fundos conseguissem produzir retornos brutos suficientemente elevados, o resultado líquido poderia continuar superando o CDI mesmo depois da cobrança.

“Se os fundos entregassem uma rentabilidade bruta significativa, a líquida superaria o CDI e os investidores estariam tranquilos em pagar 2 com 20”, afirma.

Novo modelo depende da performance

A XP Asset está entre as gestoras que decidiram modificar a estrutura de cobrança. Seu fundo macro passou para um modelo de taxa de administração de 1% ao ano e performance de 30%.

A alteração transfere uma parcela maior da remuneração da gestora para o resultado efetivamente obtido. Bruno Marques, gestor de fundos multimercados da XP Asset, afirma que a mudança busca ampliar o alinhamento entre o desempenho entregue ao cotista e a remuneração da gestão.

“A taxa de administração paga o nosso custo de funcionamento, mas não deixa nenhum de nós rico. Queremos ganhar com performance”, diz Marques.

A mudança não ficou restrita às taxas. O fundo voltou a concentrar sua estratégia principalmente em juros e política monetária, áreas historicamente relevantes para sua geração de alfa, além de adotar limite de volatilidade de 5%.

Para Marques, a revisão da cobrança acompanha essas mudanças. O gestor argumenta que a proposta não significa necessariamente receber menos, mas tornar a remuneração mais dependente dos resultados.

Os cálculos de Galvão ajudam a dimensionar a diferença entre os modelos. Segundo o analista da Nord, o ponto de equilíbrio entre o tradicional “2 com 20” e a estrutura de “1 com 30” está em aproximadamente 9 pontos percentuais acima do CDI.

Isso significa que o fundo precisaria entregar, de forma consistente, algo próximo de CDI mais 9% ao ano para que o modelo com administração de 2% e performance de 20% se tornasse mais favorável ao cotista do que a estrutura adotada pela XP Asset.

O patamar é elevado considerando o histórico recente da indústria. Nos últimos anos, parte relevante dos gestores encontrou dificuldades até mesmo para acompanhar o CDI.

A Kinea também revisou sua cobrança. Em junho, a gestora reduziu de 2% para 1,5% ao ano a taxa de administração do fundo multimercado Chronos, mantendo a taxa de performance em 20%.

Segundo simulação divulgada pela gestora, caso a estrutura de “1,5 com 20” estivesse em vigor desde junho de 2016, o retorno acumulado teria alcançado 174,2%, ante 161,5% registrado pelo modelo anterior. No mesmo intervalo, o CDI acumulou 139,4%.

CDI elevou a exigência sobre os gestores

A mudança no ambiente econômico ajuda a explicar por que o modelo dos multimercados passou a ser mais questionado.

Galvão lembra que, entre 2015 e 2020, o Brasil atravessou um período marcado por redução dos juros e mudanças estruturais que abriram oportunidades para gestores macro. Nesse contexto, diversos fundos conseguiram produzir retornos superiores aos referenciais.

Nos últimos anos, entretanto, o CDI elevado aumentou o custo de oportunidade de permanecer em estratégias de gestão ativa. Para justificar taxas superiores às cobradas por produtos passivos ou instrumentos de renda fixa, os multimercados precisam gerar retorno adicional suficiente para compensar o risco e os custos.

Marques reconhece que a concorrência aumentou, mas considera que os multimercados ainda podem desempenhar uma função relevante nas carteiras. Para isso, porém, o desempenho precisa voltar a justificar a alocação.

“Não tem estrutura de custos que justifique um fundo que não performa bem”, afirma.

Na avaliação do gestor, a ausência de tendências prolongadas nos juros e na Bolsa brasileira nos últimos anos também prejudicou estratégias macro. Esses fundos costumam buscar ganhos identificando movimentos econômicos e financeiros que podem se estender por períodos mais longos.

Especialistas defendem revisão das estratégias

Outros profissionais do mercado consideram que reduzir taxas pode ser apenas uma parte da transformação necessária.

Marco Bismarchi, sócio e gestor de portfólio da TAG Investimentos, avalia que o principal desafio é recuperar a capacidade de gerar valor para o investidor. A gestora mantém uma visão cautelosa sobre a categoria e considera que parte da indústria perdeu competitividade.

Bismarchi observa que existem gestores internacionais capazes de cobrar taxas elevadas justamente porque conseguem gerar alfa de maneira consistente. Sob essa perspectiva, o nível da taxa não pode ser analisado isoladamente do retorno entregue.

Para ele, uma das possibilidades para a indústria brasileira seria rever o tipo de estratégia predominante. Enquanto fundos macro ganharam grande espaço no Brasil, outras categorias, como estratégias de valor relativo, avançaram em mercados internacionais.

“Talvez o que faça sentido para o mercado brasileiro seja uma readequação das estratégias”, afirma Bismarchi.

Samuel Ponsoni, especialista em fundos de investimento e fundador da Outliers Advisory, identifica outro problema na evolução dos multimercados brasileiros: a expansão excessiva do escopo de atuação.

Segundo ele, fundos macro que inicialmente possuíam áreas específicas de especialização cresceram e passaram a operar um número maior de mercados e geografias. Além dos ativos brasileiros, passaram a assumir posições em juros americanos, europeus e asiáticos, commodities e crédito internacional.

A expansão aumentou a capacidade de alocação, mas não necessariamente veio acompanhada de vantagens competitivas em todos esses mercados.

“Os gestores foram ficando cada vez mais generalistas sem necessariamente provar que tinham um diferencial para operar essas estratégias”, afirma Ponsoni.

Uma consequência apontada pelo especialista é a maior semelhança entre as carteiras e os resultados dos fundos. Em episódios de estresse, diferentes gestoras passaram a reagir de maneira semelhante, reduzindo a descorrelação que historicamente ajudava a justificar a presença de multimercados nas carteiras.

Para Ponsoni, uma possível resposta seria reduzir o universo de atuação e recuperar especializações capazes de diferenciar os produtos.

“Não há uma bala de prata, mas eu definitivamente pensaria em reduzir o escopo de atuação. Nichar para aumentar a chance de se diferenciar”, afirma.

A leitura dos especialistas indica, portanto, que a revisão das taxas pode ajudar a tornar os produtos mais competitivos, principalmente enquanto o CDI permanece elevado. O desafio mais amplo, entretanto, está na capacidade das gestoras de voltar a entregar retorno ajustado ao risco suficiente para justificar a gestão ativa.

Com R$ 672 bilhões em resgates acumulados desde 2022, recuperar a confiança dos investidores dependerá não apenas de quanto os fundos cobram, mas também das estratégias utilizadas e do resultado líquido que conseguem entregar aos cotistas.

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