O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, atribuiu o avanço do endividamento das famílias brasileiras à expansão do crédito nos últimos anos e contestou a avaliação de que a alta da Selic tenha sido a responsável pelo movimento.
Durante a abertura da Febraban Tech 2026, nesta segunda-feira (24), Galípolo argumentou que juros mais baixos tendem a estimular empréstimos e aumentar o endividamento, enquanto taxas elevadas restringem a concessão de crédito.
“Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu”, afirmou.
Segundo o presidente do BC, a trajetória começou a ganhar força a partir de 2020, quando a combinação entre juros historicamente baixos, programas de sustentação financeira durante a pandemia e maior bancarização ampliou o acesso das famílias ao sistema de crédito.
A expansão continuou posteriormente, mesmo com a recuperação do emprego e da renda e o início do aperto monetário. Dados apresentados por Galípolo mostram que uma das principais fontes recentes desse crescimento foi o crédito consignado destinado aos trabalhadores do setor privado.
Desde o lançamento da modalidade, em março de 2025, o saldo passou de R$ 41 bilhões para R$ 102 bilhões. O Relatório de Política Monetária do BC também aponta aumento dos atrasos em financiamento de veículos, crédito pessoal não consignado e consignado privado entre os principais fatores relacionados à piora recente.
“Se você promoveu, de alguma maneira, uma elevação do crédito, é normal esperar que o endividamento também cresça”, afirmou Galípolo.
O cartão de crédito também entrou no diagnóstico do Banco Central. Entre 2020 e 2024, 37 milhões de brasileiros passaram a utilizar esse meio de pagamento. O número de usuários com dívidas sujeitas a juros aumentou de 34 milhões para 52,8 milhões.
No mesmo período, o comprometimento da renda com cartão avançou de 38,5% para 54%, enquanto a inadimplência passou de 55% para 64,5%, segundo os dados apresentados pelo presidente do BC.
Galípolo indicou que a autoridade monetária está analisando mudanças regulatórias para estimular uma concessão mais responsável e reduzir distorções no mercado de cartões. Entre os pontos em discussão estão os incentivos gerados pelos prazos de pagamento e pelo parcelamento sem juros.
Uma das preocupações é com o subsídio cruzado existente no modelo, no qual benefícios concedidos a determinados consumidores podem ser compensados por juros maiores cobrados de clientes que recorrem ao crédito rotativo e outras modalidades mais caras.
O presidente do BC não antecipou quais medidas poderão ser adotadas, mas citou a possibilidade de instrumentos macroprudenciais e a análise de experiências internacionais.
A avaliação apresentada por Galípolo coloca a expansão do crédito e os incentivos existentes no sistema financeiro no centro da discussão sobre o endividamento das famílias. Ao mesmo tempo, sinaliza que a regulação do cartão de crédito deve ocupar espaço na agenda do Banco Central diante do crescimento da inadimplência e do comprometimento da renda.









