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Ou se diminui o sonho ou se aumenta o esforço

O sucesso dos outros chega até nós editado. Ninguém publica a repetição. Publica o resultado

Por Felipe Fernandes, engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro

Recentemente ouvi Gustavo Borges dizer uma frase que não me saiu mais da cabeça: “você não pode se iludir e ter sucesso ao mesmo tempo”.

Achei simples demais na hora. Depois entendi por que ela incomoda.

Quando olhamos para alguém que chegou, vemos a medalha. Raramente vemos as manhãs em que não havia medalha alguma esperando. Vemos a empresa pronta, não os anos em que ninguém sabia se aquilo daria certo. Vemos o patrimônio, não os prazeres adiados nem a quantidade de vezes em que foi preciso repetir hoje aquilo que já havia sido feito ontem.

O sucesso dos outros chega até nós editado. Ninguém publica a repetição. Publica o resultado. E aí passamos a comparar a nossa rotina inteira com o melhor instante da vida de alguém — uma conta que nunca fecha a nosso favor.

Mas existe outra conta, mais silenciosa, e essa sim precisa fechar.

De um lado, o tamanho do que se deseja. Do outro, o tamanho do que se está disposto a entregar. Sonhar é gratuito. É fácil querer uma empresa maior, uma carreira melhor, mais patrimônio, uma equipe extraordinária. Difícil é olhar para aquilo que se quer e perguntar se a pessoa que se é hoje está preparada para sustentar a vida que se diz querer amanhã.

A ilusão raramente mora no tamanho do sonho. Mora na recusa de aceitar que, para o resultado crescer, alguma coisa também precisa crescer dentro de quem o persegue.

No mundo empresarial isso acontece o tempo todo.

O empresário diz que quer dobrar o faturamento, mas quer continuar tomando as mesmas decisões. Quer uma empresa duas vezes maior com a mesma capacidade de gestão. Quer contratar gente melhor pagando o que sempre pagou. Quer atender clientes maiores mantendo os mesmos processos. Quer o próximo nível conservando todos os hábitos do nível anterior.

A conta não fecha. E quando ela não fecha, só existem duas escolhas honestas: ou se diminui o sonho, ou se aumenta o esforço.

Vale dizer uma coisa que quase ninguém diz: não há nada de errado em diminuir o sonho. Nem todo empresário precisa multiplicar o negócio indefinidamente, nem todo profissional precisa ocupar o maior cargo. É perfeitamente legítimo escolher uma vida menor em escala e maior em tranquilidade. Quem faz essa escolha com clareza não fracassou. Apenas decidiu.

O problema é outro. É querer a recompensa de uma escolha sem aceitar o preço que vem com ela.

Queremos excelência sem repetição.

Queremos liderança sem responsabilidade.

Queremos patrimônio sem paciência.

Queremos resultado extraordinário com comportamento ordinário.

Aí já não estamos sonhando. Estamos nos iludindo.

Só que aumentar o esforço também é uma expressão mal compreendida. Esforço não se mede em cansaço. Somar horas é a resposta mais imediata — e quase nunca a que resolve. Há gente exausta caminhando na direção errada.

Às vezes esforço é estudar antes de decidir. É contratar alguém melhor do que você. É reconhecer que a estrutura que trouxe a empresa até aqui não vai levá-la adiante. É dizer não a uma oportunidade boa para preservar uma decisão melhor. É continuar fazendo direito quando ninguém está olhando. É abrir mão do prazer de parecer certo para ter a chance de melhorar.

O esforço que interessa é o que reduz a distância entre aquilo que se quer e aquilo que se está preparado para entregar.

Escrevo isto com alguma autoridade, porque acabei de sair do outro lado dessa conta. Neste mês estreei um podcast, o 15 pra 7. A ideia tinha dois anos.

Dois anos entre imaginar o projeto e gravar o primeiro episódio. Gastei esse tempo esperando o momento ideal, pensando no cenário, no roteiro, no propósito. Chamei aquilo de preparação. Era adiamento com aparência de preparação.

O que faltava não era clareza sobre o que eu queria. Era aceitar o preço: reservar, toda semana, horas que já estavam ocupadas com outras coisas, e montar uma equipe capaz de sustentar aquilo com a qualidade que quem assiste merece. Enquanto eu não aceitei esse preço, o projeto simplesmente não existiu. No dia em que aceitei, ele estreou.

O sonho estava pronto havia dois anos. O esforço é que não estava.

No fim, é quase aritmética. De um lado, o que se deseja. Do outro, o que se está disposto a fazer, aprender, abandonar, suportar e esperar. Se os dois lados não têm o mesmo peso, alguma coisa precisa mudar.

Pode ser a meta. Pode ser o prazo. Pode ser você.

Mas alguma coisa precisa mudar — porque a diferença entre a vida que se deseja e a vida que se está disposto a construir não é resolvida por frase motivacional, curso, livro nem torcida.

Foi por isso que aquela frase ficou comigo. Sonhar grande continua sendo de graça. Realizar nunca foi.

E a escolha, no fim, é desconfortavelmente simples: ou se diminui o sonho, ou se aumenta o esforço.

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