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Crédito caro leva varejistas a buscar até R$ 8,4 bilhões em FIDCs

Com bancos mais seletivos e juros elevados, empresas antecipam recebíveis por meio de FIDCs; emissões desses fundos bateram R$ 53,1 bilhões no semestre

O aumento do endividamento das empresas e a maior seletividade dos bancos estão ampliando o espaço dos fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) no financiamento do varejo brasileiro. Levantamento com 27 companhias listadas na B3 identificou cerca de R$ 6 bilhões em operações relacionadas a esses fundos, valor que pode chegar a R$ 8,4 bilhões quando consideradas exposições que não aparecem de forma clara nos balanços.

Os FIDCs permitem transformar recebíveis futuros, como parcelas de vendas e carnês, em recursos disponíveis imediatamente. Para varejistas pressionados pelo custo da dívida, pelo consumo mais fraco e pela inadimplência das famílias, a operação tornou-se uma alternativa quando linhas bancárias ficam menores, mais caras ou exigem garantias adicionais.

A Casas Bahia é um dos casos de maior exposição. Em recuperação judicial, a companhia possui aproximadamente R$ 3,95 bilhões relacionados a 12 fundos. Algumas operações chegaram a oferecer remuneração de CDI mais 30% ao ano aos investidores, taxa associada ao nível de risco atribuído aos ativos. Na Lojas Quero-Quero, as cotas seniores do FIDC Verdecard somam aproximadamente R$ 1,36 bilhão.

O crescimento desses instrumentos não significa, entretanto, que eles sejam sempre uma alternativa mais barata aos bancos. Um executivo financeiro de uma varejista listada afirmou que sua empresa analisou o modelo, mas encontrou custos próximos de CDI mais 3,8% a 4% ao ano, sem vantagem suficiente sobre outras formas de antecipação de recebíveis.

A expansão dos FIDCs também faz parte de uma mudança mais ampla no financiamento das companhias brasileiras. Dados da Anbima mostram que o patrimônio líquido desses fundos passou de R$ 639,79 bilhões em maio de 2025 para R$ 791,42 bilhões em julho de 2026. No primeiro semestre deste ano, as emissões alcançaram o recorde de R$ 53,1 bilhões, segundo a Moody’s. O crescimento inclui diferentes modalidades de crédito e não se limita ao varejo.

A securitização ganhou participação enquanto o mercado de capitais passou a dividir com os bancos um espaço cada vez maior no crédito corporativo. Carolina Yaginuma, diretora sênior de Finanças Estruturadas da Fitch, afirma que, há uma década, para cada R$ 1 emprestado pelos bancos às empresas havia aproximadamente R$ 0,20 captado no mercado de capitais e menos de R$ 0,10 em securitização. Atualmente, essas relações superam R$ 1 e se aproximam de R$ 0,50, respectivamente.

O acesso a esses recursos, porém, varia de acordo com a qualidade de crédito. Empresas com balanços mais sólidos continuam conseguindo captar em condições competitivas, enquanto companhias altamente alavancadas enfrentam taxas maiores, prazos menores e exigências adicionais de garantias. A Moody’s observa que linhas de prazo mais longo estão particularmente restritas, com algumas novas operações limitadas a até dois anos.

Os indicadores de crédito refletem essa diferenciação. A Moody’s contabilizou 13 rebaixamentos de rating e apenas três elevações entre empresas não financeiras no primeiro semestre. A Fitch também identificou pressão no varejo, que ficou entre os setores com maior número de rebaixamentos, embora as agências ressaltem que a situação varia significativamente entre as companhias.

Outro sinal do aperto aparece no destino do dinheiro captado. Segundo Leonardo Albuquerque, analista sênior da Moody’s, entre 70% e 80% das emissões recentes foram direcionadas à gestão de passivos. Em vez de financiar expansão, novas lojas ou aquisições, os recursos são usados principalmente para substituir dívidas existentes, alongar vencimentos e administrar o caixa.

A pressão financeira pode ocorrer mesmo quando vendas e resultados operacionais permanecem relativamente estáveis. Renato Donatti, diretor sênior da Fitch, aponta que o problema de determinadas companhias está concentrado no fluxo de caixa, especialmente no aumento das despesas com juros. Quanto maior a parcela do caixa destinada ao serviço da dívida, menor a disponibilidade para estoques, investimentos e expansão.

A janela de captações de 2024 e 2025 ajudou parte das empresas a enfrentar esse cenário. Segundo a Fitch, o mercado de capitais movimentou perto de R$ 750 bilhões por ano no período, contra aproximadamente R$ 300 bilhões anuais anteriormente, permitindo alongar vencimentos quando os spreads estavam menores e os prazos, mais longos.

Nesse ambiente, os FIDCs assumem funções diferentes conforme a situação financeira de cada empresa. Para companhias com acesso a crédito mais barato, o instrumento pode não ser competitivo. Para aquelas que enfrentam restrições bancárias e vencimentos próximos, antecipar recebíveis pode funcionar como fonte adicional de liquidez — embora a operação transfira para o presente recursos que originalmente entrariam no caixa no futuro e tenha custos que precisam ser considerados na estrutura financeira.

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