O reforço de até R$ 10 bilhões no capital do Bradesco (BBDC4) não será utilizado para promover uma expansão acelerada da carteira de crédito. O banco pretende direcionar sua estratégia para crescimento sustentável, tecnologia e clientes de maior renda, enquanto mantém cautela diante dos juros elevados e da pressão da inadimplência.
O aumento de capital, aprovado pelos controladores e previsto para ser concluído até o fim de setembro, representa uma sinalização de confiança no processo de transformação da instituição, segundo o diretor financeiro do Bradesco, Cassiano Scarpelli. O executivo afirmou que o banco não pretende buscar participação de mercado a qualquer custo.
O valor também não altera de maneira substancial a estrutura de uma instituição com patrimônio próximo de R$ 190 bilhões. Por outro lado, o ingresso dos recursos aumenta a necessidade de gerar resultados capazes de remunerar o capital adicional e elevar o retorno sobre o patrimônio.
No segundo trimestre de 2026, o Bradesco registrou lucro líquido de R$ 7,05 bilhões, avanço de 16,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) alcançou 16%, enquanto a carteira de crédito ampliada chegou a R$ 1,137 trilhão, crescimento anual de 11,6%.
Uma das prioridades para melhorar a eficiência está na tecnologia. O banco prepara uma nova plataforma de mobile banking para o fim do ano, com maior integração à Bia, sua ferramenta de inteligência artificial. Atualmente, a tecnologia já responde por cerca de 90% das solicitações realizadas pelo chat e executa operações como Pix e pagamentos.
O objetivo de longo prazo é ampliar a autonomia da ferramenta. O Bradesco pretende transformar a Bia em uma espécie de gerente digital capaz não apenas de responder solicitações, mas também de antecipar necessidades dos clientes e conduzir processos relacionados a crédito e investimentos.
A digitalização também acompanha uma reorganização da base de clientes. Consumidores de menor renda estão sendo direcionados para canais digitais, universo que deve alcançar aproximadamente 40 milhões de clientes entre outubro e novembro.
Ao mesmo tempo, o banco quer ampliar a presença entre consumidores de média e alta renda. O segmento Principal, destinado a clientes com renda superior a R$ 25 mil, deve encerrar 2026 com 800 mil a 900 mil clientes. Depois de uma primeira fase baseada principalmente na migração de correntistas da própria instituição, a estratégia passará a buscar clientes atualmente atendidos por concorrentes.
O Prime, voltado para rendas entre R$ 8 mil e R$ 25 mil, também receberá maior atenção. O plano envolve atendimento dedicado, integração com WhatsApp, maior participação da Bia e oferta de produtos como cartões. Scarpelli ressalta, porém, que o banco não pretende utilizar preços ou condições agressivas simplesmente para conquistar mercado.
No crédito, a postura continua mais conservadora. O Bradesco vem ajustando os critérios de concessão e aprimorando modelos para identificar antecipadamente sinais de deterioração. Entre os segmentos que exigem acompanhamento estão algumas modalidades de crédito rural e pessoal e operações vinculadas ao FGO e ao FGI.
A inadimplência no cartão apresentou melhora entre clientes de menor renda, enquanto o segmento de renda média ainda registra pressão. O CFO não espera uma deterioração abrupta, mas reconhece que o ambiente pode continuar exigindo provisões elevadas para perdas com crédito.
Os juros permanecem como um dos principais condicionantes da estratégia. Na avaliação de Scarpelli, um juro real próximo de 10% representa um nível elevado para a economia, encarece o crédito e limita a capacidade de expansão da atividade.
Enquanto aguarda condições mais favoráveis para acelerar determinados negócios, o Bradesco procura diversificar suas fontes de receita. Serviços, gestão de caixa para empresas e operações de tesouraria estão entre as frentes de expansão, incluindo a abertura de uma mesa dedicada ao mercado de energia.
O aumento de capital, portanto, amplia a capacidade financeira do banco, mas não muda a prioridade imediata. O Bradesco pretende utilizar o período para avançar na transformação tecnológica, ajustar sua atuação comercial e elevar a rentabilidade antes de buscar uma expansão mais agressiva do crédito.










