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Oby Capital vê dívida pública perto de 95% do PIB

Gestor da Oby Capital prevê inflação persistente, juros elevados e crescimento econômico limitado durante o quarto mandato de Lula, entre 2027 e 2030

A trajetória da dívida pública, a persistência da inflação e as dificuldades para reduzir os juros devem concentrar as preocupações do mercado financeiro durante o quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na avaliação de Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, a continuidade da atual estratégia econômica, baseada em ajuste fiscal gradual e aumento de arrecadação, será insuficiente para estabilizar o endividamento brasileiro até 2030.

O cenário elaborado pelo gestor prevê que a dívida bruta do governo geral alcance 94,6% do Produto Interno Bruto (PIB) ao final do mandato, enquanto o dólar poderá chegar a R$ 6,85 e a taxa Selic permanecer em 11,25% ao ano. As projeções consideram a manutenção do arcabouço fiscal, mas também a dificuldade do governo em produzir superávits primários suficientes para compensar o elevado custo dos juros.

Segundo Cavalcanti, a reeleição de Lula representa a continuidade de uma política econômica conhecida pelos investidores, mas em condições fiscais mais restritivas. Desde 2023, o governo priorizou medidas de aumento de receitas para reduzir o déficit público, sem conseguir interromper o crescimento da dívida, que passou de 71,7% do PIB no encerramento de 2022 para 82,9% em agosto de 2026.

O gestor destaca que o juro real brasileiro está próximo de 9,5% ao ano, enquanto as despesas com juros da dívida pública já representam 8,9% do PIB em 12 meses. Ao mesmo tempo, aproximadamente 92% do Orçamento está comprometido com despesas obrigatórias, deixando uma margem limitada para ajustes nas demais áreas.

Pelos cálculos da Oby Capital, seria necessário alcançar um superávit primário superior a 2% do PIB nos próximos anos para estabilizar o endividamento. Entretanto, o governo inicia o novo mandato com compromissos de campanha que podem representar entre R$ 70 bilhões e R$ 90 bilhões em despesas adicionais e renúncias de receitas em 2027.

A capacidade de implementar medidas fiscais também deverá enfrentar obstáculos políticos. Cavalcanti observa que o Congresso eleito apresenta composição mais à direita, com o Partido Liberal ocupando 121 cadeiras na Câmara dos Deputados, enquanto os partidos identificados com a esquerda somam aproximadamente 124 parlamentares. Nesse ambiente, propostas de aumento de arrecadação ou contenção de despesas dependerão de negociações com partidos de centro.

A Oby Capital considera que o governo deverá manter a estratégia de ajuste apoiada principalmente na arrecadação, por meio da revisão de benefícios tributários, da tributação de altas rendas e de possíveis contribuições sobre empresas que utilizam amplamente contratos com pessoas jurídicas. Do lado das despesas, a expectativa é de mudanças pontuais, sem alterações relevantes na vinculação de benefícios previdenciários ao salário mínimo.

Para Cavalcanti, essa combinação limita a velocidade do ajuste. A proposta econômica do governo prevê sair de um déficit primário de 0,5% do PIB em 2026 para um superávit de 1,5% em 2030, o que exigiria melhora de aproximadamente 0,5 ponto percentual do PIB por ano. A Oby Capital, porém, não espera que essa trajetória seja cumprida.

Mesmo em um cenário mais favorável, o gestor estima que a melhora anual do resultado primário ficaria entre 0,3 e 0,4 ponto percentual do PIB, podendo ser inferior diante das dificuldades políticas e orçamentárias. Um dos principais obstáculos é o crescimento das despesas vinculadas ao salário mínimo, que continuará recebendo reajustes reais de até 2,5% ao ano.

A avaliação é de que a manutenção de um ajuste fiscal lento preservará os prêmios de risco exigidos pelos investidores, dificultando a redução dos juros. Com a dívida próxima de 83% do PIB, o gestor calcula que cada ponto percentual de redução do juro real diminuiria em aproximadamente 0,8 ponto do PIB o superávit necessário para estabilizar o endividamento.

No cenário central, a Selic encerrará 2026 em 13,25% ao ano e recuará para 12% em 2027. Os cortes deverão ocorrer de maneira mais limitada nos anos seguintes, levando a taxa para 11,75% em 2028, 11,50% em 2029 e 11,25% em 2030.

A inflação também deverá permanecer acima da meta perseguida pelo Banco Central. O gestor projeta alta de 5,40% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2027, seguida de 5,20% em 2028 e 5% tanto em 2029 quanto em 2030.

Entre os fatores que podem manter os preços pressionados estão os efeitos do fim da escala de trabalho 6×1 sobre o setor de serviços, a desvalorização cambial e as decisões relacionadas aos subsídios dos combustíveis. Segundo Cavalcanti, uma retirada das subvenções, acompanhada de maior alinhamento dos preços praticados pela Petrobras às cotações internacionais, poderia acrescentar mais de um ponto percentual à inflação de 2027.

A projeção cambial indica desvalorização progressiva do real ao longo do mandato. A Oby Capital estima o dólar em R$ 5,85 no encerramento de 2027, R$ 6,20 em 2028, R$ 6,50 em 2029 e R$ 6,85 em 2030. Para o gestor, o movimento refletirá a manutenção do risco fiscal e a dificuldade de convergência da inflação para a meta.

O crescimento econômico também deverá apresentar desempenho limitado. A instituição projeta expansão do PIB de 1,2% em 2027 e de 1,5% ao ano entre 2028 e 2030. Programas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e investimentos do Novo PAC deverão sustentar parte da atividade, mas os juros reais elevados e a fraqueza do investimento privado tendem a restringir uma aceleração mais consistente.

No curto prazo, Cavalcanti prevê uma reação negativa dos ativos brasileiros à reeleição presidencial. Segundo sua avaliação, parte da valorização registrada desde setembro refletia expectativas de vitória do candidato Flávio Bolsonaro, cenário que favoreceu a queda do dólar, o recuo dos juros futuros e a valorização das ações.

A projeção para esta segunda-feira (26) aponta o dólar entre R$ 5,50 e R$ 5,70, elevação de 100 a 150 pontos-base nas taxas dos contratos futuros de juros de longo prazo e queda de 6% a 10% do Ibovespa. Bancos, empresas de varejo, construção civil e companhias de menor capitalização aparecem entre os segmentos potencialmente mais afetados. As ações de estatais, como Petrobras e Banco do Brasil, poderão registrar perdas superiores às do índice.

O gestor ressalta que a intensidade da reação dependerá das primeiras manifestações do governo após o resultado eleitoral. A reafirmação do compromisso com a meta fiscal de 2027 e a confirmação da equipe econômica poderiam limitar a deterioração dos preços dos ativos. Em contrapartida, novos anúncios de despesas ou críticas à atuação do Banco Central tenderiam a ampliar a percepção de risco.

Outro ponto de atenção será a elaboração definitiva do Orçamento de 2027. Cavalcanti avalia que o governo deverá tentar preservar formalmente a meta fiscal por meio de novas receitas, redução de emendas parlamentares e eventuais contingenciamentos de despesas ao longo do próximo ano.

A dificuldade, segundo o gestor, está na necessidade de acomodar compromissos como o reajuste do Bolsa Família, novos programas sociais, medidas voltadas aos microempreendedores individuais e possíveis subsídios aos combustíveis. A aprovação de receitas adicionais dependerá de um Congresso menos favorável à agenda econômica do Executivo.

No cenário central, o resultado primário deverá ficar próximo de zero em 2027, seguido de déficits de 0,1% do PIB em 2028, 0,2% em 2029 e 0,3% em 2030. Com isso, a dívida bruta avançaria para 86,6% do PIB no próximo ano, 89,9% em 2028, 92,4% em 2029 e 94,6% ao final do mandato.

Cavalcanti também considera a possibilidade de um cenário mais adverso caso o governo reduza a meta fiscal ou amplie as exceções utilizadas para acomodar despesas. Nessa hipótese, o dólar poderia ultrapassar R$ 6 ainda em 2027, enquanto a Selic poderia retornar a 14% ao ano.

Para o gestor, os primeiros meses do novo mandato serão decisivos para avaliar a disposição do governo em enfrentar os desequilíbrios fiscais. Entre os principais sinais estarão a composição da equipe econômica, o tratamento dado às despesas obrigatórias, a aprovação de medidas de arrecadação e a capacidade de preservar as metas orçamentárias.

A avaliação da Oby Capital é de que a previsibilidade da política econômica não será suficiente para afastar os riscos associados ao crescimento da dívida pública. Sem uma melhora mais consistente do resultado primário, o Brasil poderá atravessar o período de 2027 a 2030 com inflação persistente, juros elevados, crescimento moderado e endividamento crescente.

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