A forte turbulência registrada no mercado financeiro brasileiro após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderá perder intensidade nos próximos pregões, segundo analistas ouvidos pela CNN Brasil. Embora a Bolsa tenha enfrentado sua maior queda diária desde a pandemia, um indicador que acompanha as expectativas de volatilidade recuou expressivamente, sinalizando uma possível redução das oscilações à medida que os investidores ajustam suas posições ao resultado eleitoral.
O VIX Brasil, conhecido como um termômetro do medo no mercado acionário, chegou a cair 40% durante a segunda-feira (26) e encerrou o dia com recuo de 38,59%. O movimento contrastou com o desempenho do Ibovespa, que perdeu 13,88%, e com a valorização do dólar, que registrou sua maior alta diária em 23 anos. Os juros futuros também avançaram quase dois pontos percentuais.
A divergência entre os indicadores está relacionada, segundo especialistas, ao encerramento de parte das incertezas que antecederam o segundo turno. Com o resultado definido, os investidores passaram a desmontar operações construídas com base na expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro (PL), movimento que contribuiu para ampliar as perdas dos ativos brasileiros.
Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, explica que fundos e investidores institucionais haviam aumentado suas posições na Bolsa durante as semanas anteriores à votação. Como o cenário esperado por esses participantes não se confirmou, a necessidade de reorganizar rapidamente as carteiras intensificou a pressão vendedora.
Na avaliação da especialista, esse processo de liquidação tende a perder força conforme o resultado eleitoral é incorporado aos preços. Isso não significa, entretanto, o fim das oscilações. O mercado deverá passar por um período de acomodação, com investidores reavaliando o valor dos ativos a partir dos indicadores econômicos e das perspectivas para o próximo mandato.
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, observa que o otimismo registrado depois do primeiro turno durou aproximadamente 15 dias. Para ele, a reação negativa poderá persistir temporariamente, enquanto os agentes financeiros aguardam informações mais concretas sobre a condução da política econômica.
Apesar da queda expressiva de segunda-feira, o Ibovespa ainda acumulava valorização de 10,32% em 2026. Desde o início de 2023, o avanço superava 60%, o que mostra que o recuo ocorreu depois de um período de valorização relevante do mercado acionário.
A atenção dos investidores agora se concentra na formação da equipe econômica e nas medidas que serão apresentadas para as contas públicas. Agostini considera que a escolha do próximo ministro da Fazenda será um dos principais sinais observados pelo mercado. Em sua avaliação, a indicação de um nome com experiência técnica e capacidade de diálogo com o setor privado poderá influenciar as expectativas sobre o novo governo.
Olivia Carneiro, economista com mestrado pela Universidade de Chicago, também destaca o papel da relação entre o Executivo e o Congresso Nacional. A composição do Legislativo exigirá negociações para a aprovação de propostas com impacto econômico, enquanto os investidores acompanharão a possibilidade de mudanças nas prioridades fiscais e regulatórias.
Entre os temas que poderão afetar as projeções estão o fim da escala de trabalho 6×1 e seus possíveis efeitos sobre os custos das empresas e a inflação, conforme avaliação de Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo. O analista também chama atenção para os riscos climáticos associados ao El Niño, que podem influenciar os preços dos alimentos.
O ambiente internacional acrescenta outras fontes de incerteza. Os preços da energia, os conflitos no Oriente Médio e as dificuldades enfrentadas por diferentes países para administrar dívida pública, inflação e juros elevados continuam influenciando as decisões de investimento.
Para os analistas, a diminuição da volatilidade após o choque eleitoral não elimina as preocupações com os fundamentos da economia brasileira. A trajetória dos mercados dependerá das informações divulgadas durante a transição para o próximo mandato, especialmente das definições sobre política fiscal, equipe econômica e capacidade de articulação do governo no Congresso.









