A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 13,75% ao ano provocou críticas de integrantes do PT e aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A interrupção do ciclo de redução dos juros, anunciada na quarta-feira (4), ocorreu após a revisão das expectativas de inflação e política monetária pelo mercado financeiro, na sequência da reeleição presidencial.
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) atribuiu a decisão do Banco Central à mudança nas expectativas dos investidores após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro. Em publicação na rede social X, o parlamentar classificou a manutenção dos juros como uma “vergonha” e afirmou que o mercado passou a apostar na suspensão dos cortes depois do resultado eleitoral.
“Até a sexta-feira antes das eleições os mercados precificavam vitória do Flávio Bolsonaro e queda de 0,25 [ponto percentual] na taxa Selic. Lula ganhou, e o mercado decidiu rebaixar as expectativas e apostou no freio da queda de juros”, escreveu Lindbergh.
O deputado, que foi líder do PT na Câmara e conquistou a reeleição em outubro, também criticou participantes do mercado financeiro que elevaram suas projeções para a taxa básica, referindo-se a eles como “barões da Faria Lima”.
As revisões mencionadas pelo parlamentar aparecem no boletim Focus divulgado na terça-feira (3), primeiro levantamento publicado após o segundo turno. A mediana das expectativas de inflação para 2026 passou de 5,19% para 5,22%, enquanto a projeção para 2027 subiu de 4,34% para 4,76%. Para 2028, a estimativa avançou de 3,75% para 4%.
As previsões para a Selic também foram elevadas. Para o encerramento de 2026, a mediana passou de 13,25% para 13,5%. Em 2027, a projeção aumentou de 11,75% para 12,5%, enquanto a expectativa para 2028 subiu de 10% para 11%.
As alterações ocorreram em um ambiente de maior incerteza sobre a condução da política econômica no próximo mandato. O Focus reúne estimativas de instituições financeiras e consultorias e não representa uma decisão do Banco Central sobre a trajetória futura dos juros.
Outro aliado de Lula que criticou a manutenção da Selic foi Edegar Pretto, coordenador da campanha presidencial no Rio Grande do Sul e ex-presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Pretto afirmou que a autoridade monetária demonstra maior preocupação com os interesses do sistema financeiro do que com o desenvolvimento econômico do país.
“Enquanto o mundo enxerga oportunidades no nosso país, quem define os juros insiste em frear nossa economia”, declarou.
As críticas também alcançaram os efeitos dos juros sobre o mercado de trabalho. Antes da divulgação da decisão do Copom, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, relacionou a desaceleração da geração de empregos formais ao nível elevado da taxa básica.
Durante entrevista coletiva sobre os dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o ministro afirmou que a política monetária restritiva tem prejudicado a atividade econômica. “Os juros vêm machucando”, declarou.
Os dados apresentados indicaram a abertura líquida de 121.305 empregos com carteira assinada em setembro, resultado apontado como o menor para o mês desde o início da série histórica do Novo Caged, em 2020.
A manutenção da Selic em 13,75% ocorre em um contexto de expectativas de inflação mais elevadas e dúvidas sobre a política fiscal do próximo governo. Para o Banco Central, a definição dos juros está relacionada ao objetivo de assegurar a convergência da inflação à meta, enquanto integrantes da base governista defendem uma redução mais rápida das taxas para estimular o crédito, o investimento e a geração de empregos.
A divergência evidencia a pressão política sobre a condução da política monetária após a reeleição de Lula, em um momento em que investidores aguardam definições sobre a equipe econômica e as prioridades fiscais do novo mandato.









