O Brasil pode entrar no primeiro ano do próximo governo com dívida pública equivalente a 100% do PIB. A projeção consta no Monitor Fiscal do FMI e representa um ponto de partida que eleva substancialmente o grau de dificuldade do ajuste fiscal, independentemente de quem assumir o poder em 2027.
O ponto de chegada não é surpreendente dado o ponto de partida. O déficit nominal brasileiro deve saltar de 6,2% do PIB em 2024 para 8,1% em 2025, reflexo da piora simultânea do resultado primário e do avanço das despesas com juros. A dívida bruta, que já era elevada, deve seguir essa trajetória: 93,3% do PIB em 2025, 96,5% em 2026, 100% em 2027, com continuidade de alta até 106,5% em 2031. Para efeito de comparação, a média dos mercados emergentes excluindo a China está em torno de 57,5% do PIB, e a América Latina como um todo deve permanecer próxima de 74% até o fim da década.
O mecanismo que sustenta essa trajetória é o que economistas chamam de efeito bola de neve. Com juros elevados, o custo de carregar a dívida sobe e amplia o déficit. Esse déficit maior, por sua vez, eleva ainda mais o estoque de dívida, que gera mais despesas financeiras, retroalimentando o processo. O FMI aponta que esse avanço da conta de juros consome recursos que poderiam ser direcionados a outras áreas e torna a dinâmica cada vez mais difícil de controlar sem uma intervenção estrutural.
O contraste com pares regionais é revelador. O México combina déficit de 4,9% do PIB com uma trajetória de dívida estável ao redor de 63%, apoiada em contenção de gastos mais consistente. Enquanto parte relevante dos emergentes caminha para estabilização ou redução do endividamento, o Brasil segue com déficits persistentes que impedem qualquer reversão dessa dinâmica.
As consequências vão além do balanço fiscal. Dívida elevada e déficits persistentes reduzem a capacidade do governo de reagir a choques inesperados, como crises energéticas ou tensões geopolíticas, e deixam a economia mais exposta à volatilidade dos mercados. A ausência de um plano de consolidação crível também tende a elevar os prêmios de risco, encarecendo ainda mais o financiamento e criando um impacto adicional sobre o crescimento num ciclo que se retroalimenta.
O FMI defende que a saída passa pelo fortalecimento dos marcos fiscais com âncoras de médio prazo críveis e efetivas. Sem essa estratégia, a tendência é de manutenção de prêmios de risco elevados, com efeito direto sobre juros e crescimento, exatamente o cenário que qualquer novo governo herdará em 2027.










