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Varejo alimentar perde tração e enfrenta demanda instável em 2026

Oscilações nas vendas e avanço da inflação revelam cenário desafiador para o varejo alimentar em 2026

O varejo alimentar brasileiro entrou em 2026 sem conseguir estabelecer uma trajetória consistente de crescimento, refletindo um ambiente de consumo fragilizado e sujeito a oscilações semanais. Levantamento da Associação Brasileira de Supermercados, com base em dados da NielsenIQ, mostra que, desde o início de fevereiro, o setor não consegue sustentar duas semanas consecutivas de alta nas vendas nas chamadas “mesmas lojas”, indicador que considera unidades com mais de 12 meses de operação. Após um início de fevereiro positivo, o desempenho passou a alternar entre altas e quedas, evidenciando a falta de tração da demanda.

Os números mais recentes ilustram essa volatilidade. Na última semana de março, houve retração de 1,1% nas vendas na comparação anual, seguida por uma alta de 6,9% na primeira semana de abril. No acumulado do ano até 5 de abril, o crescimento é de apenas 0,7% em valor, abaixo da inflação do período, o que indica perda de volume vendido. Em uma análise de quatro semanas, o índice já aponta desaceleração de 1%, reforçando a percepção de enfraquecimento do consumo. Mesmo ao incluir todas as lojas, abertas ou maduras, o comportamento segue irregular, sem sinais claros de aceleração.

A leitura regional amplia o diagnóstico de fragilidade. Entre o fim de dezembro de 2025 e o início de abril de 2026, o desempenho do varejo alimentar no Nordeste ficou abaixo da média nacional em 12 das 14 semanas analisadas, com quedas mais intensas quando ocorrem retrações. Em outras regiões, como Grande São Paulo e Sul, esse descolamento negativo ocorreu em menor frequência, enquanto no Grande Rio foi observado em 10 semanas. A deterioração mais acentuada no Nordeste tem impacto direto sobre redes com maior exposição à região, como o Grupo Mateus, cuja operação está concentrada no Norte e Nordeste e depende fortemente da dinâmica local de renda e consumo.

Esse ambiente de demanda instável já se reflete nas expectativas para os balanços do primeiro trimestre. Analistas projetam vendas pressionadas para empresas como Assaí e Grupo Mateus, ainda que com alguma estabilidade de margens no caso do Assaí. A estratégia de preservar rentabilidade em vez de impulsionar volume por meio de promoções indica um setor operando de forma defensiva diante de consumidores mais restritos. Projeções de mercado apontam queda nas vendas “mesmas lojas” dessas companhias, com recuos que variam entre 0,3% e 1,2%, dependendo da empresa e da instituição financeira que faz a estimativa.

O cenário macroeconômico ajuda a explicar esse comportamento. A combinação de juros elevados, aumento da inadimplência e alto comprometimento da renda das famílias tem limitado o consumo, especialmente em segmentos mais sensíveis ao orçamento. A inflação também voltou a ganhar relevância, com o IPCA registrando alta de 0,88% em março e acumulando 4,14% em 12 meses. Sem o impacto dos combustíveis, a inflação mensal teria sido de 0,64%, indicando que parte da pressão vem do aumento dos preços de energia, influenciado pelo cenário externo.

O choque internacional, impulsionado pela alta do petróleo em meio ao conflito no Oriente Médio, tem efeitos disseminados na cadeia produtiva, elevando custos de transporte, fertilizantes e insumos industriais. Esse movimento tende a pressionar preços de alimentos e, ao mesmo tempo, limitar a capacidade de consumo das famílias. Ainda assim, a inflação de alimentos pode gerar um efeito ambíguo no curto prazo: ao elevar preços de itens básicos como arroz, óleo e açúcar, aumenta o faturamento nominal das empresas sem necessariamente reduzir o volume, dado o caráter essencial desses produtos.

Executivos do setor já identificam essa mudança. O diretor financeiro global do Carrefour, Matthieu Malige, afirmou recentemente que a inflação de alimentos voltou a acelerar no Brasil a partir de março, com impactos diretos sobre o comportamento de clientes, especialmente no segmento de atacarejo. Nesse modelo, compradores corporativos, como restaurantes e pequenos comerciantes, tendem a antecipar compras quando percebem alta de preços, enquanto adiam reposição de estoques em períodos de deflação. Esse comportamento pode gerar distorções temporárias nas vendas e contribuir para a volatilidade observada nos indicadores semanais.

Os resultados recentes do Carrefour Brasil ilustram esse ambiente. A companhia registrou vendas de €4,6 bilhões no primeiro trimestre, com queda de 1,4% em termos orgânicos e recuo de 0,8% nas vendas em mesmas lojas. O desempenho foi pressionado principalmente pelo Atacadão, responsável por cerca de 70% da receita do grupo, e pelas operações de supermercados e hipermercados, enquanto apenas o Sam’s Club apresentou crescimento mais consistente. Trata-se do segundo trimestre consecutivo de retração nas vendas comparáveis, reforçando o quadro de desaceleração do consumo.

Outro fator que começa a entrar no radar do setor é o risco regulatório e tributário. A Receita Federal iniciou a notificação de cerca de 2,9 mil varejistas para cobrar aproximadamente R$ 10 bilhões relacionados ao uso indevido de créditos de PIS/Cofins. A identificação de irregularidades em cerca de 55 mil pedidos de ressarcimento e compensação adiciona um novo elemento de pressão sobre o setor, que já opera com margens sensíveis e enfrenta um ambiente macroeconômico adverso.

No conjunto, o varejo alimentar atravessa um momento de transição, marcado por demanda irregular, inflação em retomada e restrições financeiras das famílias. A ausência de crescimento consistente nas vendas, combinada com pressões de custo e incertezas externas, indica um cenário em que a recuperação dependerá menos de estímulos pontuais e mais de uma melhora estrutural na renda e nas condições de crédito. Até lá, a tendência é de manutenção da volatilidade e de estratégias mais conservadoras por parte das empresas do setor.

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