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Blue3 mapeia os dois cenários para o Banco Central na próxima reunião do Copom

Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3, avalia que a próxima reunião do Copom pode ser um divisor de águas

Em 2026, a economia global consolidou uma transição de regime. A geopolítica deixou de ser ruído de curto prazo e passou a funcionar como variável estrutural na precificação, no investimento e na formulação de política monetária. É a leitura de Roberto Simioni, Economista-Chefe da Blue3 Investimentos, que aponta o conflito entre Estados Unidos e Irã — já com mais de 100 dias sem qualquer resolução diplomática — como o epicentro dessa mudança e o elemento central que tornará a próxima reunião do Copom um divisor de águas para a política monetária brasileira.

Desde o início do conflito, o petróleo Brent acumulou alta superior a 42%, reflexo não apenas do estrangulamento logístico no Estreito de Ormuz, mas também da destruição de diversas plantas petroquímicas no Oriente Médio.

Para Simioni, o choque de oferta resultante tem propriedades de persistência que desafiam as séries históricas: o petróleo e o gás natural deixaram de afetar apenas os índices de preços pelo canal direto dos combustíveis e passaram a se propagar de forma assimétrica por toda a matriz de insumos intermediários — encarecendo combustíveis marítimos, frete internacional, seguros de carga e a energia embutida na manufatura pesada, comprimindo margens operacionais e erodindo o poder de compra das famílias.

O contexto global reforça a complexidade do momento. O Banco Central da Coreia do Sul e o Banco do Japão sinalizam possíveis reversões de política monetária, com intenção de elevar juros no segundo semestre de 2026 diante do avanço da inflação. O BCE enfrenta a reunião desta semana em um bloco estruturalmente exposto a choques de oferta, dado sua dependência crônica de importações energéticas. O Banco da Inglaterra, encurralado entre inflação de serviços resiliente, atividade debilitada pelo pós-Brexit e risco de expansão fiscal, também é apontado por Simioni como candidato a elevar juros no segundo semestre.

No Federal Reserve, o economista traça dois caminhos: caso o Fed interprete o choque como sendo de dois trimestres de duração, pode realizar pelo menos três aumentos ao longo do segundo semestre; caso opte pela leitura de choque prolongado, acima de três trimestres, pode promover pelo menos dois aumentos mais robustos, entre 0,50% e 0,75%, aceitando os impactos sobre a atividade e o aumento da inadimplência entre as famílias de menor renda.

Para o Brasil, Simioni avalia que o cenário pode reservar surpresas. Após dois cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual nas últimas reuniões do Copom, acumulando redução de 0,50 ponto, a decisão da próxima reunião exige, na sua avaliação, um posicionamento mais crítico sobre a extensão do conflito e a magnitude do choque de oferta ainda em curso. O economista desenha dois cenários com implicações radicalmente distintas para a economia brasileira.

No primeiro cenário — choque inflacionário de dois trimestres —, o Banco Central poderia optar por manter os juros no patamar atual ao longo do segundo semestre de 2026, tolerando uma projeção de IPCA entre 4,0% e 4,5% em 2026 e entre 3,5% e 4,0% em 2027, ambas acima do centro da meta de 3,0%. Nessa hipótese, o choque poderia elevar o IPCA em cerca de 1,8 ponto percentual no primeiro ano e 2,4 pontos no segundo, com expectativas de inflação se descolando para a faixa de 4,5% a 4,8% em 2026 e 2027, depreciação cambial estimada em torno de 7% e crescimento do PIB reduzido para cerca de 1,6% em 2026.

No segundo cenário — choque prolongado, acima de três trimestres —, a persistência inflacionária exigiria uma correção mais enérgica. Com empresas ajustando preços com maior frequência e trabalhadores buscando proteção salarial, o Banco Central seria obrigado a iniciar um novo ciclo de aperto, elevando a Selic ao patamar de 15% e mantendo-a em condição restritiva por pelo menos três trimestres. As projeções nesse caso apontam para IPCA entre 4,8% e 5,2% em 2026 e entre 4,0% e 4,4% em 2027, expectativas de inflação acima de 5,3%, depreciação cambial estimada próxima de 10% e crescimento do PIB reduzido para entre 1,4% e 1,7% em 2026.

A escolha entre os dois caminhos não é trivial — e os custos do erro são assimétricos. Simioni é direto: “Caso opte pela posição de não agir, o Banco Central estará assumindo a possibilidade de construir uma inflação acima da meta para os próximos trimestres, acelerando a desancoragem das expectativas. Caso opte pelo retorno ao ciclo de aperto, estará aceitando a possibilidade de perda de produto e maior pressão social no segundo semestre.” O economista conclui com uma advertência que resume o dilema: “Neste novo regime de dominância geopolítica, errar para menos na taxa de juros pode custar, em termos reputacionais, muito mais do que errar para mais.”

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