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Corte da Selic divide análises e mantém dúvidas sobre próximos passos do Copom

O Copom cortou a Selic para 14,25% — mas o comunicado veio mais duro do que o esperado

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, em decisão unânime, reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. O movimento já era amplamente esperado pelo mercado, mas o que chamou atenção dos especialistas foi o tom do comunicado — mais cauteloso e com sinais explícitos de que o ciclo de flexibilização pode estar próximo de uma pausa.

Para Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby C, o dado mais relevante foi a revisão das projeções de inflação do próprio Banco Central, que subiram consideravelmente: a estimativa para o final de 2027 passou de 3,5% para 3,7%. Entre os fatores de risco destacados pelo Comitê, Cavalcanti aponta a retomada da aceleração da atividade econômica, os efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e energia — associados ao El Niño — e os estímulos à demanda agregada, como programas governamentais de crédito ao consumo. “No trecho em que justifica sua decisão, o Banco Central mostrou a possibilidade de que o ciclo atual seja parado para garantir a suavização da convergência da inflação à meta”, avalia o gestor, que considera a próxima decisão do Copom totalmente em aberto, com o mercado já precificando chance razoável de pausa.

Bruna Centeno, economista, sócia e advisor na Blue3 Investimentos, reforça que o tom do comunicado reflete o ambiente externo ainda incerto, mesmo após o acordo de paz anunciado nesta semana entre Estados Unidos e Irã. Segundo ela, esse acordo não foi suficiente para alterar a perspectiva do Banco Central, já que o conjunto de indicadores da atividade doméstica mostrou que, apesar da aceleração econômica no primeiro trimestre, existe pressão inflacionária relevante pesando sobre o balanço de risco — agravada pela inflação de maio, que superou o limite superior da meta. “O Banco Central segue com o tom de corte de 0,25, mas coloca que, na possibilidade de aumento desse balanço de risco, pode ser que a gente observe sim uma pausa”, afirma Centeno, que também destaca a influência da política fiscal doméstica nesse cálculo. Para ela, um período mais prolongado de manutenção da taxa básica deve ser uma das principais evidências a observar nas próximas decisões.

Raphael Vieira, head de Investimentos da Arton Advisors, detalha que o Banco Central reconheceu sinais acumulados de desaceleração da economia e os efeitos da política monetária restritiva, mas ao mesmo tempo destacou a recente aceleração da atividade, a resiliência do mercado de trabalho e a piora dos indicadores de inflação e de suas medidas subjacentes. Na avaliação de Vieira, a principal mensagem da decisão é que o ciclo de cortes permanece aberto, mas com menor previsibilidade e elevada dependência dos dados. “O BC preservou flexibilidade para novas reduções da Selic, mas sinalizou que o ritmo e a magnitude dos próximos movimentos serão definidos com base na evolução da inflação, das expectativas e da atividade econômica”, pontua.

Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, oferece a leitura mais detalhada sobre a mudança de tom do Comitê. A projeção de inflação para 2026 saltou de 4,6% para 5,2%, e a estimativa para o quarto trimestre de 2027 — horizonte relevante da política monetária — subiu de 3,5% para 3,7%, aproximando-se do teto da meta. Kayo destaca que, pela primeira vez, o Banco Central citou explicitamente os estímulos à demanda como fator de risco inflacionário, numa referência direta ao impulso fiscal eleitoral, além de reconhecer que a inflação corrente superou o limite superior da meta na última leitura. No cenário externo, o economista nota uma evolução relevante na linguagem: o Comitê passou a reconhecer os “efeitos já materializados” dos conflitos no Oriente Médio, em contraste com a “indefinição sobre a duração” mencionada na reunião de abril. No doméstico, a atividade acelerou no primeiro trimestre, com setores mais cíclicos voltando a crescer, o mercado de trabalho seguindo resiliente e as expectativas do Boletim Focus para 2026 chegando a 5,30% — acima até da nova projeção do próprio Copom. “O Comitê reafirmou serenidade e cautela, sem sinalizar direção para agosto. Com projeções de inflação deterioradas, atividade acima do esperado e expectativas desancoradas, o BC deixa claro que os próximos passos dependem da evolução dos dados, elevando a barra para novas reduções”, conclui Kayo.

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