A transformação digital acelerou a inclusão financeira no Brasil, mas também abriu espaço para uma nova geração de fraudes altamente sofisticadas. O avanço da inteligência artificial (IA) trouxe ganhos importantes para o sistema financeiro, como automação, análise preditiva e melhoria da experiência do usuário. Porém, a mesma tecnologia passou a ser utilizada por criminosos para aplicar golpes mais convincentes, personalizados e difíceis de detectar.
Dados recentes da Polícia Federal apontam que o número de vídeos e áudios falsos produzidos com IA cresceu mais de 800% entre 2024 e 2025, evidenciando a velocidade com que os crimes digitais estão evoluindo. O cenário já preocupa bancos, fintechs e órgãos reguladores, especialmente porque o Brasil se tornou um dos países mais visados por ataques envolvendo deepfakes, engenharia social e manipulação de identidade digital.
Entretanto, a inteligência artificial mudou completamente o cenário das fraudes financeiras nos últimos anos. As fraudes ficaram mais sofisticadas, convincentes e escaláveis. Ao mesmo tempo, conseguimos ver que a própria IA também fortaleceu os mecanismos de monitoramento, detecção e tratamento de alerta suspeitos.
Essa disputa tecnológica entre criminosos e instituições financeiras criou uma verdadeira corrida armamentista digital. Hoje, os golpes não dependem mais apenas de mensagens mal escritas ou ligações suspeitas facilmente identificáveis. Ferramentas de IA conseguem reproduzir vozes, rostos, padrões de escrita e até comportamentos humanos com enorme precisão, tornando os ataques quase indistinguíveis da comunicação legítima.
Ou seja, o impacto vai além do prejuízo financeiro. A sofisticação dos golpes compromete a confiança do consumidor no sistema bancário e provoca danos emocionais relevantes. Muitas vítimas relatam constrangimento, insegurança e sensação de vulnerabilidade após serem enganadas por fraudes cada vez mais realistas. Em um ambiente no qual a confiança é um dos principais ativos do setor financeiro, o desafio reputacional também cresce.
Outro ponto crítico é que não existe mais um único perfil vulnerável. Enquanto idosos continuam sendo alvo frequente de golpes ligados a falso suporte técnico e empréstimos consignados, os jovens e usuários altamente conectados são impactados por fraudes em marketplaces, redes sociais, jogos online e aplicativos financeiros. Isso mostra que a ameaça se espalhou por todas as camadas digitais da sociedade.
Para enfrentar esse cenário, bancos vêm ampliando investimentos em inteligência artificial aplicada à prevenção de fraudes. Monitoramento comportamental, análise transacional em tempo real, autenticação baseada em risco e biometria multicamadas já fazem parte da rotina das instituições financeiras. O objetivo deixou de ser apenas identificar operações suspeitas, agora é necessário distinguir comportamentos legítimos de ações artificialmente manipuladas.
Não à toa, a segurança baseada em camadas se tornou uma das estratégias mais eficientes. Biometria facial e autenticação em duas etapas continuam sendo importantes, mas já não são suficientes isoladamente. O cruzamento de dados comportamentais, localização geográfica, padrão de compra, velocidade de navegação e perfil transacional passou a ser essencial para detectar anomalias em tempo real.
Além da tecnologia, cresce também a necessidade de educação digital. A população precisa entender que golpes modernos exploram principalmente emoções humanas, como urgência, medo e ansiedade. Mensagens alarmantes, contatos inesperados, ofertas “imperdíveis” e pedidos incomuns continuam sendo sinais importantes de alerta, mesmo em uma era de conteúdos gerados por IA quase perfeitos.
Do ponto de vista regulatório
O Brasil ainda está em fase de adaptação. O país possui uma base relevante de normas relacionadas à proteção de dados e segurança bancária, mas a velocidade da evolução tecnológica exige atualizações constantes. O desafio regulatório será equilibrar inovação, segurança e experiência do usuário sem criar barreiras excessivas para consumidores e empresas.
A tendência para os próximos anos é clara, os golpes com inteligência artificial se tornarão ainda mais personalizados, automatizados e convincentes. Entretanto, o mesmo avanço tecnológico também permitirá mecanismos de defesa mais inteligentes e preditivos. O futuro da segurança financeira dependerá da capacidade de bancos, reguladores e consumidores evoluírem juntos em um ambiente digital cada vez mais complexo.
No fim das contas, a inteligência artificial não é o problema em si. O verdadeiro desafio está na velocidade com que a sociedade consegue adaptar seus mecanismos de proteção diante de uma tecnologia que evolui diariamente. Em um país altamente digitalizado como o Brasil, proteger a confiança no sistema financeiro é tão importante quanto proteger o próprio dinheiro.
Marcelo Alves de Souza, Gerente de Prevenção e Combate à Fraude e PLDFT do Banco Bari









