O IBC-Br, indicador mensal de atividade econômica calculado pelo Banco Central, avançou 0,5% em abril, resultado levemente abaixo do consenso de mercado, que projetava alta de 0,6%. Para Sara Paixão, Analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, o dado chega em um momento decisivo: o indicador reforça os argumentos para o corte de 25 pontos-base na Selic, decisão que o Copom anuncia ainda hoje.
A analista lembra que, na véspera, as vendas no varejo também surpreenderam negativamente o mercado — combinação que, na sua leitura, sustenta a expectativa de que o comitê dará continuidade ao ciclo de cortes, mantendo o tom dependente de dados para as próximas reuniões.
Na abertura por setores, a indústria foi o destaque positivo, com crescimento de 0,4% no mês, sinalizando recuperação no início do segundo trimestre. O setor de serviços avançou 0,3%, enquanto a agropecuária permaneceu estável na comparação com março. No acumulado em 12 meses, o indicador subiu 1,6%.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, aprofunda a leitura sobre a composição do dado. Excluindo o setor agropecuário, que sofreu estagnação no período, o IBC-Br registrou crescimento de 0,4%, com altas equilibradas entre os principais grupos — a indústria liderou com 0,4%, enquanto serviços e coleta de impostos, que também compõem o cálculo do indicador, cresceram 0,3%.
Para Pizzani, esse desempenho está alinhado ao que já havia sido observado nas pesquisas mensais do IBGE no período (PIM, PMC e PMS), cujos resultados apontaram crescimento baseado na melhora da demanda externa por commodities energéticas — com foco no petróleo — e na dinamização de segmentos voltados a essa produção, como a indústria extrativa e parte do setor de serviços.
O economista chama atenção para um detalhe metodológico relevante: como o Banco Central incorpora o segmento de comércio ao grupo de serviços no cálculo do IBC-Br, o desempenho mais fraco do comércio explica, em grande medida, por que serviços apresentou taxa de variação inferior à indústria — mesmo que, na pesquisa individual do setor (PMS), os serviços tenham registrado a melhor performance do mês.
Colocando o dado em perspectiva mais ampla, Pizzani avalia que o resultado de hoje é mais um elemento na esteira de informações que apontam para um processo de desaceleração gradual da atividade econômica, que havia iniciado o ano com resultados excepcionalmente fortes no primeiro bimestre.
Segundo o economista, esse arrefecimento — ainda que lento — se concentra especialmente em componentes ligados à economia doméstica, com maior sensibilidade à taxa de juros e à capacidade de tomada de crédito dos agentes. Por outro lado, os segmentos diretamente ligados ao nível de renda disponível e, indiretamente, ao mercado de trabalho devem seguir apresentando maior resiliência — ainda que em nível inferior ao previsto no início do ano, já que o choque de oferta gerado pelo conflito no Oriente Médio e a alta do petróleo devem corroer parte importante da renda das famílias em função do patamar mais elevado de inflação. O PicPay mantém projeção de crescimento de 0,4% para o PIB do segundo trimestre e de 1,7% ao final do ano.
Para a política monetária, Pizzani avalia que a manutenção desse padrão de crescimento não deve ser vista como entrave para o Banco Central continuar seu ciclo de ajustes. Ele destaca que a pressão recente sobre o IPCA é, em grande medida, fruto de choques de oferta — algo pouco controlável pela política monetária. Ainda assim, o economista pondera que a resiliência do setor de serviços e o elevado represamento de custos ao longo das cadeias de bens industriais representam riscos de curto e médio prazo que a autoridade monetária não deve desconsiderar, funcionando como limitadores para um ciclo de cortes excessivamente longo.










