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Carros chineses dobram vendas e provocam guerra de preços no Brasil

Guerra de preços no setor automotivo reduz valores de carros zero-quilômetro e provoca descontos abaixo da Tabela Fipe nos usados

O avanço acelerado dos automóveis chineses no Brasil está provocando uma ampla reorganização do mercado e pressionando para baixo os preços de veículos novos, seminovos e usados. No primeiro semestre de 2026, foram emplacados 140,8 mil carros importados da China, quase o dobro das 71 mil unidades registradas no mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

O crescimento também aparece nas vendas de fabricantes chineses que já iniciaram operações industriais no país, como BYD e GWM. As marcas têm conquistado espaço principalmente com modelos elétricos e híbridos vendidos a preços competitivos, acompanhados de maior oferta de tecnologia, garantias prolongadas e promessa de economia no abastecimento. A reação das montadoras tradicionais desencadeou uma disputa por preços que começa a beneficiar consumidores interessados tanto em carros zero-quilômetro quanto em usados.

Fabricantes e concessionárias passaram a ampliar descontos, reduzir preços de tabela e oferecer bônus mais elevados para clientes que entregam um automóvel usado na compra de um modelo novo. O movimento aproximou o valor de alguns veículos zero-quilômetro dos preços cobrados por seminovos, obrigando as revendedoras a reduzir margens para evitar o aumento dos estoques.

A Toyota, por exemplo, passou a oferecer bônus de até R$ 40 mil na troca de um usado, dependendo do modelo escolhido. No caso do Yaris Cross XR, o preço caiu de R$ 149.990 para R$ 139.900, com bônus adicional de R$ 10 mil para a entrega de outro automóvel. Um cliente com um veículo avaliado em R$ 20 mil pode, dessa forma, obter crédito de R$ 30 mil e reduzir o desembolso pelo modelo novo para R$ 109.900.

A fabricante japonesa reconheceu que as condições comerciais mais agressivas respondem à entrada de novos concorrentes e às transformações relacionadas à eletrificação, conectividade e digitalização. A empresa também citou mudanças nas expectativas dos consumidores em relação à mobilidade.

A Honda oferece bônus de até R$ 15 mil na troca de veículos usados. A Volkswagen reduziu em aproximadamente R$ 10 mil o preço do T-Cross e lançou uma campanha nacional de promoções. A Fiat, controlada pela Stellantis, combinou bônus na troca com um corte expressivo no preço do Fastback Impetus Turbo, que passou de R$ 173.490 para R$ 134.990.

Embora as empresas tradicionais evitem atribuir diretamente as promoções à concorrência chinesa, a expansão dessas marcas tem aumentado a preocupação da indústria instalada no país. A Anfavea tem defendido maior proteção à produção nacional e criticado os incentivos concedidos aos veículos importados ou montados a partir de kits pré-fabricados no exterior.

A BYD encerrou o primeiro semestre com 99.029 emplacamentos, crescimento de 107% na comparação anual e volume próximo das 112.814 unidades comercializadas durante todo o ano anterior. Em quatro anos, a companhia afirma ter vendido cerca de 300 mil automóveis eletrificados no Brasil. Parte dos modelos é montada na Bahia com componentes previamente produzidos na China.

A GWM, que possui fábrica no interior de São Paulo, vendeu 35.218 automóveis e comerciais leves nos seis primeiros meses do ano, mais que o dobro das 15.259 unidades registradas no mesmo período de 2025. Os modelos das duas fabricantes aparecem entre as principais opções de consumidores interessados em veículos híbridos e elétricos.

Os preços partem de aproximadamente R$ 110 mil em alguns segmentos, aproximando modelos chineses maiores e mais equipados de automóveis menores fabricados no país. Essa relação tem atraído consumidores particulares, motoristas de aplicativos e taxistas interessados em reduzir os gastos com combustível e manutenção. O programa de crédito Move Brasil contempla veículos híbridos e elétricos de até R$ 150 mil para determinadas categorias profissionais.

Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística, avalia que os fabricantes chineses conseguem disputar mercado oferecendo veículos maiores e com mais equipamentos pelo mesmo preço de modelos nacionais de categorias inferiores. Para ele, essa diferença obriga as empresas tradicionais a reverem seus preços e a proposta de valor apresentada aos consumidores.

A redução dos preços dos carros novos rapidamente alcançou o mercado de seminovos e usados. Como o valor de um veículo usado costuma ser calculado a partir do preço do automóvel novo equivalente, qualquer desconto concedido pelas montadoras pressiona as avaliações em toda a cadeia.

Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, afirma que a oferta de veículos chineses com tecnologia embarcada, garantias mais longas e preços agressivos acelerou a depreciação dos usados. Segundo ele, o movimento representa uma mudança em relação ao cenário observado poucos anos atrás, quando a escassez de automóveis e os problemas na produção sustentavam preços elevados.

Em revendedoras visitadas no Rio de Janeiro, principalmente no segmento de SUVs, diversos modelos eram oferecidos abaixo dos valores indicados pela Tabela Fipe. Com os pátios cheios e poucos clientes dispostos a fechar negócio, lojistas passaram a aceitar descontos maiores para manter o giro dos estoques.

Além da concorrência dos carros chineses, os juros elevados dificultam o financiamento e reduzem o poder de compra das famílias. O problema é mais evidente em veículos acima de R$ 80 mil ou R$ 100 mil, faixa em que o consumidor começa a comparar seminovos tradicionais com modelos eletrificados novos.

Empresários do setor relatam automóveis parados por vários meses e redução expressiva no movimento das lojas. Alguns passaram a cortar até R$ 12 mil do preço de SUVs usados, mesmo com impacto direto sobre as margens de lucro. A queda nas vendas também provocou fechamento de estabelecimentos, redução de equipes e diminuição das comissões pagas aos vendedores.

O cenário é desfavorável para quem pretende vender um automóvel. As revendedoras estão oferecendo avaliações menores para compensar os descontos concedidos posteriormente e preservar parte de suas margens. Para quem deseja comprar e possui recursos ou acesso a crédito, no entanto, a maior concorrência criou uma oportunidade de negociação pouco comum nos últimos anos.

O governo incluiu recentemente no Move Brasil os veículos seminovos elétricos e híbridos flex produzidos a partir de 2024 e avaliados em até R$ 150 mil. A expectativa do setor é que a ampliação do programa facilite o acesso ao crédito, reduza o peso das parcelas e ajude a movimentar os estoques.

J.R. Caporal, CEO da Auto Avaliar e da Megadealer, avalia que os incentivos podem aliviar uma das principais barreiras atuais para a compra de automóveis: o custo do financiamento. Na visão do executivo, a combinação de preços menores e linhas de crédito específicas pode reativar o mercado ao tornar as prestações mais acessíveis.

A expansão dos carros chineses não ocorre apenas no Brasil. A indústria automotiva da China aumentou fortemente sua capacidade produtiva, sobretudo no segmento elétrico, apoiada pela verticalização da cadeia de componentes, pela produção de baterias e pela intensa competição entre fabricantes locais. Com a necessidade de manter escala e rentabilidade, as empresas passaram a buscar mercados no exterior.

Dados do Conselho Empresarial Brasil-China mostram que os veículos eletrificados já representam cerca de 15% das vendas chinesas ao Brasil. Entre janeiro e junho, as importações brasileiras de híbridos plug-in provenientes da China dobraram e alcançaram US$ 2,79 bilhões. As compras de automóveis elétricos quase quadruplicaram, chegando a aproximadamente US$ 2 bilhões.

Os híbridos plug-in passaram da 25ª para a sexta posição entre os principais produtos importados da China, com aumento de 239% no valor movimentado. Para Antônio Jorge Martins, professor de cursos automotivos da Fundação Getulio Vargas, o grande número de fabricantes chineses torna a expansão internacional necessária para sustentar os resultados dessas companhias.

Enquanto Estados Unidos e países europeus adotam barreiras comerciais contra veículos chineses, as montadoras tradicionais instaladas no Brasil também pressionam o governo por maior proteção. Ao mesmo tempo, as fabricantes chinesas que estão investindo no país buscam incentivos fiscais e condições especiais para importar componentes e iniciar a produção local.

Em julho, o governo autorizou cotas adicionais com Imposto de Importação zerado para veículos totalmente desmontados ou semidesmontados, conhecidos como CKD e SKD. A medida terá duração de seis meses e limite de US$ 463 milhões, atendendo a uma demanda da BYD e contrariando a posição da Anfavea.

Para Milad Neto, diante da diferença de preço, tecnologia e equipamentos apresentada pelos concorrentes chineses, as montadoras tradicionais não têm espaço para manter os valores anteriores. Sem ajustes, os estoques aumentam e as vendas perdem força. O resultado é uma guerra de preços que expõe os desafios de competitividade da indústria brasileira.

Apesar da pressão sobre as empresas instaladas no país, a Anfavea revisou para cima sua projeção para o mercado brasileiro em 2026. A entidade estima que as vendas superarão 3 milhões de veículos, marca não alcançada desde 2014, com crescimento de 11,7% em relação ao ano anterior. A produção nacional deve alcançar cerca de 2,8 milhões de unidades, alta de 5,8% e melhor resultado desde 2019.

A expansão das vendas, porém, não elimina a preocupação com o avanço dos importados. A Anfavea argumenta que parte da recuperação está sendo capturada por automóveis beneficiados por tarifas inferiores às praticadas em outros países ou por modelos eletrificados montados no Brasil a partir de kits estrangeiros com incentivos tributários.

Para os consumidores, a disputa abre uma janela de preços mais baixos, maior poder de negociação e mais opções de veículos eletrificados. Para fabricantes, concessionárias e revendedores, o desafio será adaptar estoques, margens e estratégias comerciais a um mercado em que a concorrência chinesa passou a influenciar diretamente o valor de carros novos e usados.

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