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Governo avalia que Selic ainda pode cair mais em 2026

Expectativa é de que a Selic caia para 13,75% até setembro. Nos bastidores, integrantes do governo criticam atraso no início da flexibilização monetária

A desaceleração da inflação voltou a fortalecer a expectativa de novos cortes na taxa básica de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Nos bastidores do governo, a avaliação predominante é de que os indicadores mais recentes, especialmente o resultado do IPCA-15 de julho, criaram condições para que a autoridade monetária mantenha o ciclo de flexibilização iniciado neste ano.

A expectativa compartilhada por integrantes da equipe econômica é de que o Copom reduza a Selic novamente na reunião desta semana e promova pelo menos mais um corte em setembro, encerrando o ciclo em 13,75% ao ano. Caso esse cenário se confirme, a taxa retornará ao mesmo patamar observado no início do atual governo e durante o período das eleições presidenciais de 2022.

Apesar da convergência em torno da trajetória esperada para os juros, persistem divergências sobre a condução da política monetária. A avaliação de interlocutores do governo é de que o Banco Central demorou para iniciar o processo de redução da Selic. Na visão dessas fontes, havia espaço para o início dos cortes ainda no fim do ano passado ou no início deste ano, antes do agravamento do cenário internacional provocado pelos conflitos geopolíticos e pelo aumento da volatilidade nos mercados.

Segundo essa leitura, se a flexibilização tivesse começado alguns meses antes, a taxa básica poderia estar aproximadamente um ponto percentual abaixo do nível atual, mesmo considerando a necessidade de uma postura mais cautelosa diante da deterioração do ambiente externo. O ciclo de cortes foi iniciado apenas em março, decisão que, na avaliação de integrantes do governo, refletiu uma postura excessivamente conservadora por parte do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Embora exista essa insatisfação, o Palácio do Planalto tem buscado evitar novos atritos públicos com a autoridade monetária. A estratégia ocorre em um momento de desgaste na relação entre o Executivo e o Banco Central, intensificado pelas discussões envolvendo a proposta de emenda à Constituição que amplia a autonomia da instituição e pela decisão de Galípolo de não atribuir responsabilidade ao ex-presidente Roberto Campos Neto em investigações relacionadas ao Banco Master.

O governo reconhece que o cenário internacional exige cautela na condução da política monetária, especialmente diante das incertezas provocadas pelos conflitos geopolíticos e seus reflexos sobre inflação, petróleo e mercados financeiros. Ainda assim, integrantes da equipe econômica avaliam que o atraso na redução dos juros produziu custos relevantes para a atividade econômica.

Na visão do Executivo, a manutenção da Selic em patamar elevado contribui para reduzir o ritmo de crescimento da economia, encarecer o crédito para empresas e consumidores e ampliar o custo do financiamento da dívida pública. O governo argumenta que o desempenho da atividade no primeiro semestre foi sustentado, em grande parte, por medidas de estímulo e pela antecipação de gastos públicos, enquanto os juros elevados continuam restringindo investimentos e consumo.

Outro efeito destacado é o impacto fiscal. Com a Selic ainda em 14,25% ao ano, as despesas com juros permanecem pressionando as contas públicas e contribuindo para o avanço da dívida bruta, que já se aproxima de 82% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse cenário ocorre em meio à necessidade de o Banco Central manter a inflação convergindo para a meta de 3%, objetivo que a própria instituição considera desafiador diante da resiliência da atividade econômica e das expectativas inflacionárias ainda elevadas.

Assim, embora o mercado e o governo compartilhem a expectativa de continuidade do ciclo de cortes da Selic nos próximos meses, permanece a divergência sobre o ritmo e o momento em que a flexibilização monetária deveria ter sido iniciada, debate que tende a permanecer no centro das discussões econômicas às vésperas do período eleitoral.

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