A Azul decidiu sacrificar crescimento para proteger preços e rentabilidade diante do encarecimento do combustível provocado pelo conflito no Oriente Médio. A companhia reduziu sua oferta de assentos em 10,6% no segundo trimestre de 2026, mas conseguiu praticamente preservar a receita ao cobrar tarifas mais elevadas.
A estratégia foi defendida pelo CEO John Rodgerson como a resposta mais adequada ao atual ambiente para o setor aéreo. Com o petróleo pressionado e sem perspectiva clara para o fim das tensões geopolíticas, o executivo indicou que a companhia continuará adotando uma postura cautelosa nos próximos meses.
“Fizemos a coisa certa que é cortar a capacidade”, afirmou Rodgerson ao Valor.
O executivo também questionou a estratégia de concorrentes que estão aumentando a oferta mesmo diante do avanço dos custos. Sem mencionar empresas, classificou esse comportamento como sinal de irracionalidade do mercado e afirmou que os efeitos dessa escolha deverão aparecer no longo prazo.
Os números do segundo trimestre ajudam a explicar a estratégia. Mesmo oferecendo 10,6% menos assentos, a Azul registrou receita de R$ 4,978 bilhões, avanço de 0,7% sobre um ano antes e recorde da companhia para o período.
A sustentação da receita ocorreu principalmente pelo aumento das tarifas. O yield, indicador que mede quanto o passageiro paga para voar um quilômetro, avançou 12,9%, para R$ 0,4943.
“Tivemos 10% menos de oferta e ainda assim mantivemos o mesmo nível de receita”, destacou Rodgerson.
O balanço, entretanto, mostrou forte deterioração na última linha. A Azul registrou prejuízo líquido de R$ 1,041 bilhão, revertendo lucro de R$ 1,293 bilhão observado no segundo trimestre de 2025. O resultado foi pressionado por efeitos financeiros relacionados ao câmbio e pelo aumento do preço do combustível.
A redução de capacidade não ocorreu de maneira uniforme. Nas operações domésticas, a oferta caiu 6,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Nas rotas internacionais, o recuo chegou a 24,9%.
Parte da queda internacional está relacionada à renovação da frota de aeronaves de grande porte. Dos 12 Airbus A330 que integravam anteriormente a operação, sete foram devolvidos. Essas aeronaves foram posteriormente destinadas à Abra, controladora da Gol.
A Azul contratou sete aviões para recompor a frota: dois A330neo e cinco A330ceo. Até agora, recebeu um A330neo e dois A330ceo. A expectativa é incorporar as demais aeronaves até o fim de 2026, aproximadamente uma a cada dois meses.
Com a recomposição da frota em andamento, Rodgerson vê espaço para uma recuperação gradual da capacidade, mas sem abandonar a disciplina adotada durante o período de maior pressão sobre os custos.
A avaliação da administração é de que a demanda continua saudável e que o terceiro trimestre oferece condições sazonalmente mais favoráveis. A intenção, portanto, não é manter permanentemente a redução da oferta, mas retomar o crescimento à medida que as condições econômicas e operacionais permitirem.
“Estamos animados com a base de receita que temos. E agora vamos continuar crescendo com muita responsabilidade”, afirmou o CEO.
Outra frente que pode ajudar a companhia nos próximos meses é o acesso às linhas de financiamento do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC). O governo liberou recentemente R$ 492 milhões para o setor, divididos entre companhias com participação superior a 5% no mercado doméstico. Cada uma passou a ter acesso a uma linha de R$ 164 milhões.
Segundo Rodgerson, a Azul já obteve a liberação junto ao BNDES e está negociando as etapas seguintes com instituições financeiras. A expectativa do executivo é que os recursos estejam disponíveis ainda no terceiro trimestre.










