As empresas brasileiras devem reduzir os investimentos em 2027 para níveis próximos do mínimo necessário à manutenção de seus ativos, diante do impacto prolongado dos juros elevados sobre o caixa e o endividamento. A avaliação é de Renato Donatti, diretor sênior de Corporate, Infraestrutura e Project Finance da Fitch Ratings.
Durante seminário da agência de classificação de risco em São Paulo, Donatti afirmou que 2027 pode registrar o menor nível de investimento das companhias acompanhadas pela Fitch em anos, quando comparado à depreciação dos ativos.
Na prática, empresas pressionadas pelo custo financeiro tendem a reduzir despesas sobre as quais possuem maior controle. Nesse cenário, os investimentos podem ficar limitados praticamente à reposição da depreciação, necessária para preservar a qualidade dos ativos existentes, com menos espaço para expansão.
A pressão financeira já aparece nas avaliações de crédito. Das 25 empresas que tiveram seus ratings rebaixados pela Fitch em 2026, 40% sofreram com problemas de fluxo de caixa e dificuldades para reduzir a alavancagem. Outros 40% foram afetados por questões de liquidez ou processos de reestruturação de dívida, incluindo recuperações judiciais e extrajudiciais.
Apesar desse quadro, a Fitch não identifica uma crise generalizada de liquidez no país. Donatti observa, porém, maior disposição das empresas financeiramente pressionadas para buscar proteção contra credores, enquanto bancos e investidores se mostram mais cautelosos em financiar companhias com balanços fragilizados e consumo recorrente de caixa.
Varejo e consumo estão entre os segmentos mais expostos, devido à combinação de juros altos e endividamento das famílias. O setor de saúde também preocupa depois de um período de forte expansão por meio de fusões e aquisições financiadas com dívida quando o custo do dinheiro era menor, e já responde por parcela relevante dos rebaixamentos realizados pela agência.
Para 2027, a Fitch acrescenta o agronegócio à lista de pontos de atenção, diante dos possíveis impactos climáticos do El Niño, dos preços dos fertilizantes associados ao conflito no Irã e das tarifas de importação. O possível fim da escala de trabalho 6×1 também é acompanhado pelo impacto potencial sobre os custos do varejo.
Na infraestrutura, um terço dos grandes projetos monitorados pela agência — incluindo portos, aeroportos, energia e concessões — apresenta perspectiva negativa. Metade desses casos, entretanto, está concentrada em projetos eólicos e solares que, segundo Donatti, enfrentam dificuldades de caráter conjuntural.
A diferença em relação ao período de 2015 e 2016, quando o Brasil também enfrentou juros elevados e uma onda de rebaixamentos de crédito, está na demanda. A Fitch considera que os fundamentos dos negócios permanecem preservados, com projeções de crescimento de receita e Ebitda nos próximos anos e manutenção da rentabilidade.
O endividamento corporativo deve continuar aumentando, mas em velocidade menor. Ao mesmo tempo, o fluxo de caixa livre tende a permanecer pressionado depois do consumo significativo de recursos pelas empresas nos últimos anos. Uma melhora em 2027 dependerá principalmente da velocidade da redução dos juros e do nível de investimentos.
A situação dos vencimentos de dívida também é considerada administrável. Segundo Donatti, a maior parte dos aproximadamente R$ 300 bilhões em compromissos corporativos já foi refinanciada. Para os próximos anos, são esperados cerca de R$ 210 bilhões em vencimentos anuais, concentrados principalmente em empresas de melhor qualidade de crédito e com maior acesso a financiamento.
O mercado de capitais doméstico tornou-se uma importante fonte dessa liquidez. Nos últimos dois anos, empresas brasileiras captaram aproximadamente R$ 1,4 trilhão em instrumentos de dívida, movimento que permitiu alongar os passivos financeiros. No mercado internacional, em contraste, investidores estão mais cautelosos com o Brasil e as emissões diminuíram em 2026.
Para a Fitch, um cenário mais favorável dependeria de maior estabilidade, redução das tensões geopolíticas e das barreiras tarifárias e consequente alívio da inflação. Isso abriria espaço para cortes adicionais de juros pelo Banco Central e reduziria a pressão financeira sobre as companhias.
Até lá, a capacidade do mercado doméstico de continuar fornecendo liquidez será determinante. A Fitch considera os próximos 12 a 18 meses um período importante para evitar que o atual aperto financeiro se transforme em problemas mais amplos de refinanciamento. A agência, contudo, não vê neste momento condições semelhantes às de uma crise corporativa generalizada.










