A XP Investimentos rebaixou a recomendação das ações do Grupo Mateus (GMAT3) de compra para neutro e reduziu o preço-alvo para R$ 5 por ação ao fim de 2027. A revisão reflete uma perspectiva mais cautelosa para o consumo nas regiões Norte e Nordeste, onde a varejista concentra suas operações.
Os analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer avaliam que a combinação entre renda mais pressionada, inflação e menor espaço para expansão de programas sociais pode dificultar o crescimento das vendas e das margens da companhia.
A exposição ao Bolsa Família é um dos pontos destacados no relatório. Os nove estados onde o Grupo Mateus opera estão entre os 12 com maior participação do benefício na renda média per capita. O Maranhão, origem da companhia e responsável por quase metade de sua base de lojas, apresenta uma das maiores dependências do programa.
Segundo a XP, o benefício médio do Bolsa Família caiu cerca de 5% nos últimos três anos. A corretora também considera limitado o espaço fiscal para reajustes expressivos no curto prazo, fator que pode restringir o avanço da renda disponível de parte dos consumidores atendidos pela varejista.
A inflação acrescenta outra pressão. A aceleração do IPCA no Norte e Nordeste reduz o poder de compra das famílias, enquanto uma inflação de alimentos mais moderada diminui o efeito nominal sobre as vendas nas mesmas lojas. Em 2023, a combinação havia sido mais favorável ao Grupo Mateus.
A XP também cita mudanças no comportamento dos consumidores, incluindo o crescimento das apostas esportivas e a maior disponibilidade de medicamentos GLP-1 para perda de peso, como potenciais fatores de redução do consumo de alimentos. No segundo trimestre de 2026, a própria companhia já havia indicado queda nos volumes vendidos.
No período, o Grupo Mateus registrou lucro líquido de R$ 237 milhões, avanço de 11,2% sobre o primeiro trimestre, mas queda de 39,3% na comparação anual. O EBITDA pós-IFRS 16 alcançou R$ 682 milhões, alta trimestral de 25,5%, enquanto a receita líquida cresceu 4,8%, para R$ 9,85 bilhões.
O cenário levou a XP a reduzir de forma relevante suas projeções. Para 2027, as estimativas de EBITDA e lucro líquido foram cortadas entre 28% e 30%. Considerando 2026 e 2027, as revisões chegam a 28% para o EBITDA e a 33% para o lucro.
Apesar dos cortes, a XP reconhece avanços do Grupo Mateus em produtividade, governança e controles internos. A avaliação, porém, é que a melhora operacional terá dificuldade para compensar um ambiente de crescimento mais moderado das receitas.
Para a corretora, uma aceleração das vendas nas mesmas lojas seria o principal caminho para ampliar a rentabilidade. A elevada exposição da companhia ao Norte e Nordeste, contudo, aumenta a sensibilidade dos resultados à renda e ao consumo nessas regiões e levou a XP a considerar menos favorável a relação entre risco e retorno de GMAT3.









