O mercado brasileiro de crédito passou por uma expansão significativa da concorrência na última década, impulsionada pelo crescimento das fintechs. O avanço ampliou o acesso de consumidores antes pouco atendidos pelo sistema bancário, mas ocorre em um momento em que 83,5 milhões de brasileiros estão na base de inadimplentes do Serasa.
A dimensão dessa transformação aparece no volume de empréstimos. As 44 fintechs de crédito acompanhadas pela PwC Brasil e pela Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) concederam R$ 53,8 bilhões em 2025, crescimento de 51% em relação ao ano anterior. Em 2016, primeiro ano da série, eram R$ 161 milhões.
Em uma década, portanto, o montante avançou mais de 330 vezes. O Brasil reúne atualmente cerca de 1,6 mil fintechs e consolidou o maior ecossistema de tecnologia financeira da América Latina.
O crescimento não significa, entretanto, que o país tenha atingido um nível elevado de crédito em relação ao tamanho da economia. A relação entre crédito e Produto Interno Bruto passou de 53,9% para 55,9% na última década, indicando que ainda existe espaço para expansão.
Para Edson Vasconcelos, CEO e fundador da ecomm|it, o desafio está na qualidade dessa expansão. A avaliação é que a ampliação da oferta precisa alcançar consumidores capazes de assumir novas obrigações sem transformar inclusão financeira em aumento da inadimplência.
O risco ganhou importância à medida que as fintechs passaram a atender segmentos anteriormente menos acessíveis aos bancos. Do dinheiro captado por essas empresas, 61,4% é destinado à concessão de crédito. Ao mesmo tempo, a inadimplência média de suas carteiras subiu de 9,5% em 2024 para 10,1% em 2025, permanecendo acima da observada no sistema bancário tradicional.
A presença dessas instituições também cresceu entre consumidores negativados. Entre 2019 e 2022, a participação das fintechs nas movimentações de inclusão e exclusão de dívidas na base do Serasa aumentou 129%. Em setembro de 2022, elas respondiam por 3,6% desses registros.
Os dados não permitem atribuir o crescimento da inadimplência brasileira às fintechs. Eles mostram, porém, que essas empresas ganharam escala suficiente para participar de forma mais relevante tanto da concessão de crédito quanto da dinâmica de endividamento e regularização financeira dos consumidores.
O cenário de juros elevados aumenta a importância da avaliação de risco. Quanto maior o custo do dinheiro, menor tende a ser a margem financeira das famílias para absorver novas parcelas, especialmente entre consumidores que já possuem parte relevante da renda comprometida.
Nesse contexto, a próxima etapa de crescimento das fintechs depende não apenas de ampliar o número de clientes, mas de aperfeiçoar a avaliação da capacidade de pagamento. O uso de tecnologia e de novas fontes de dados pode facilitar a análise de consumidores com pouco histórico financeiro, mas a expansão sustentável exige que o aumento da oferta seja acompanhado por critérios adequados de concessão.
Para Vasconcelos, a necessidade de ampliar o crédito permanece, mas a maturidade do mercado deverá ser medida também pela capacidade de oferecer financiamentos compatíveis com a situação financeira dos clientes. Depois de uma década de forte expansão, o equilíbrio entre inclusão e sustentabilidade das dívidas passa a ser um dos principais desafios do setor.










