Por Felipe Fernandes, engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro
Eu devia ter uns dezessete anos e passava as tardes trancado no quarto, estudando para o vestibular. A janela ficava aberta por causa do calor, e era por ali que entrava o barulho: a bola batendo no asfalto, os gritos, o nome dos meus amigos sendo chamados na rua. Eu conhecia cada uma daquelas vozes. Sabia exatamente quem estava jogando, em que time, e que aquilo ia continuar até escurecer.
Num fim de tarde, larguei o livro e fui procurar meu pai com uma pergunta que, para mim, era enorme: será que eu não deveria estar lá fora? Aproveitando enquanto era tempo, enquanto aquilo tudo ainda existia, em vez de gastar a juventude fechado num quarto por causa de uma prova que talvez nem desse certo.
Eu queria que ele me liberasse. Queria ouvir que meia hora de bola não faria diferença nenhuma, e que depois eu voltava para o livro.
Não foi o que ele disse. Também não me mandou estudar, não fez discurso sobre disciplina nem falou de futuro. Disse apenas uma frase que eu carrego comigo até hoje e repito muitas vezes:
“Não existe caminho certo ou caminho errado na vida. Existem as consequências do caminho que se toma.”
Foi uma resposta irritante para um menino de dezessete anos. Eu tinha ido buscar permissão e voltei para o quarto carregando uma consequência que agora era minha.
Lembrei dela numa conversa recente com um amigo que construiu uma carreira sólida como executivo. Ele me disse, com alguma frustração, que sempre teve vontade de empreender, mas que não se sente capaz de correr os riscos que eu corro.
Respondi três coisas. A primeira foi que ele parasse de se comparar comigo. Eu empreendo há vinte anos. O risco que hoje me parece normal só me parece normal porque eu o pratico desde os vinte e poucos anos, errando e corrigindo por duas décadas. Comparar o primeiro passo dele com o passo atual de quem caminha há vinte anos é uma conta que nunca vai fechar — e foi exatamente essa a armadilha que ele armou para si mesmo.
A segunda foi que, se quisesse começar, começasse com um risco compatível com quem ele é hoje, não com o risco que enxerga de fora na vida dos outros.
E a terceira foi a mais difícil: que fosse honesto consigo sobre o próprio perfil.
Pode ser que ele seja, de fato, alguém que funciona melhor dentro de uma estrutura. Que prefira a previsibilidade do salário no fim do mês, que durma melhor sem a folha de pagamento na cabeça, que renda mais executando bem do que decidindo sozinho. Se for isso, empreender não é um sonho reprimido. É um desejo emprestado, construído olhando o lado bonito da vida de quem empreende, que costuma ser o único lado que aparece.
Ou pode ser o contrário. Pode ser que ele tenha o perfil, tolere risco, queira mais e apenas nunca tenha dado o primeiro passo porque faltou empurrão. Se for isso, cada ano que passa também tem consequência.
O problema é que ele vinha tentando responder à pergunta errada. Queria saber qual dos dois caminhos era o certo.
Não existe caminho certo. Existem consequências.
Ficar na carreira executiva tem bônus e ônus: estabilidade, previsibilidade, teto. Empreender também tem bônus e ônus: liberdade, potencial e noites em que a conta não fecha e não há a quem recorrer. Nenhum dos dois é superior. São preços diferentes, cobrados em moedas diferentes.
Há uma distinção importante aqui. Meu pai estava falando de caminhos, não de caráter. Honestidade, palavra dada e integridade não entram nessa escolha. São a base sobre a qual qualquer caminho precisa ser construído. Fora disso, a vida é feita de trocas.
E quase todo o sofrimento que vejo em quem precisa decidir nasce de uma expectativa impossível: encontrar a opção que só tem bônus. Ela não existe.
Mudar pode ampliar horizontes e afastar raízes. Crescer rápido pode trazer escala e cobrar controle. Ter sócio divide o peso, mas também divide a decisão. Toda escolha entrega alguma coisa e leva outra junto.
Por isso, a pergunta útil nunca foi qual é o caminho certo. É outra, bem mais desconfortável:
Qual consequência eu estou disposto a sustentar?
Essa pergunta tem resposta. E ela é pessoal, intransferível e muda ao longo da vida. O preço que eu aceitava pagar aos vinte e cinco anos não é o mesmo que aceito hoje.
Meu pai não me disse para largar a bola e estudar. Disse que eu escolhesse sabendo o que vinha junto.
Eu escolhi o livro, e perdi tardes de rua que não voltam. Escolhi empreender, e perdi noites de sono que não se recuperam. Também ganhei coisas que não teria de outra forma.
Não foi o caminho certo. Foi o caminho cujo preço eu estava disposto a pagar.
E talvez seja só isso que qualquer um de nós realmente tenha: não a garantia de ter escolhido certo, mas a clareza sobre a consequência que aceitou sustentar.
Porque todo caminho cobra um preço. O único erro real é acreditar que existe um que não cobra nada.









