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Grupo Fictor entra em recuperação judicial com dívida de R$ 4 bilhões

Grupo alega crise de confiança e corrida por resgates após tentativa frustrada de compra do Banco Master

Pouco mais de dois meses após anunciar um acordo preliminar para adquirir o Banco Master, o Grupo Fictor protocolou pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo. A solicitação envolve uma dívida total de R$ 4 bilhões e inclui a Fictor Holding e a Fictor Invest, deixando de fora subsidiárias operacionais como a Fictor Alimentos, listada em bolsa e apontada como principal geradora de caixa do grupo.

Segundo Carlos Deneszczuk, do escritório DASA Advogados, responsável pela condução do processo, as empresas não incluídas no pedido seguem operando normalmente e não possuem endividamento relevante. O grupo atua em diferentes frentes, como alimentos, energia, setor imobiliário e soluções de pagamento, e solicitou a suspensão da cobrança das dívidas por 180 dias, prazo previsto na legislação para a negociação com credores.

Na petição, a Fictor afirma que passou a enfrentar uma crise de liquidez após a tentativa de compra do Banco Master, anunciada um dia antes da liquidação da instituição financeira pelo Banco Central. De acordo com a versão apresentada, o negócio não teria avançado porque Daniel Vorcaro não conseguiu fornecer informações consideradas suficientes pelo regulador. O episódio, sustenta o grupo, teria provocado uma deterioração da confiança do mercado e afetado diretamente o fluxo de pagamentos a investidores.

A maior parte da dívida está concentrada em investidores pessoas físicas que aportaram recursos por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs). Cerca de nove mil investidores figuram como credores, somando aproximadamente R$ 2,8 bilhões. Nesse modelo, o investidor se torna sócio do empreendimento, mas não conta com supervisão do Banco Central, cobertura do Fundo Garantidor de Créditos nem garantias reais.

Com promessas de retornos de até 18% ao ano e pagamentos mensais, o grupo começou a registrar atrasos após o colapso do acordo com o Master. Segundo a Fictor, houve um aumento de cerca de 70% nos pedidos de resgate, movimento que agravou a crise de liquidez. A situação levou a Associação Brasileira de Assessores de Investimento a solicitar à Comissão de Valores Mobiliários uma análise sobre possíveis indícios de oferta pública irregular de valores mobiliários por meio das SCPs.

Além dos investidores, a American Express figura entre os maiores credores da holding, com dívida estimada em R$ 1,2 bilhão. A Fictor atuava na antecipação de recebíveis de cartões para empresas, por meio da FictorPay, em parceria com a Orbitall. Em janeiro, uma decisão judicial determinou o bloqueio cautelar de R$ 150 milhões, valor que deveria servir como garantia contratual em conta escrow, após ação movida pela Orbitall.

O pedido de recuperação também pode afetar contratos de patrocínio, como o firmado com a Palmeiras, estimado em até R$ 30 milhões por ano. Segundo apuração, o grupo negocia a rescisão do acordo. O plano apresentado pela Fictor não envolve bancos como credores e prevê pagamento das dívidas em até cinco anos, sem deságio. A empresa afirma que rescisões trabalhistas realizadas no ano passado já foram quitadas e que a maior parte dos cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos das subsidiárias será preservada.

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