Os juros futuros negociados na B3 encerraram mais uma sessão de alta expressiva nesta sexta-feira (6), em movimento que destoa da trajetória dos demais ativos domésticos de risco e que reflete, segundo participantes do mercado, uma combinação de pressão geopolítica externa com ajustes técnicos de posicionamento. O pano de fundo é a escalada do conflito no Oriente Médio, que levou o barril de petróleo Brent para maio a US$ 92,63, patamar que obriga os mercados financeiros a revisar estimativas de inflação e reavaliar as perspectivas para a política monetária brasileira de curto prazo.
O impacto mais imediato é sobre as expectativas em relação ao Copom. Um corte de 0,50 ponto percentual na Selic na reunião de março, até poucos dias atrás considerado praticamente consensual, perdeu força de forma acentuada ao longo da semana.
Segundo cálculos do economista-chefe do banco BMG, Flávio Serrano, a curva de juros precificava nesta tarde cerca de 65% de probabilidade de redução de apenas 0,25 ponto percentual, contra 50% registrados na véspera. Mais do que isso, já há profissionais do mercado que colocam na mesa a possibilidade de o Banco Central manter a taxa Selic inalterada na próxima reunião, cenário que seria impensável há uma semana. O próprio Serrano, que ainda mantém como base o corte de 0,50 ponto, admite que tudo dependerá dos próximos dias. A taxa precificada para o final de 2026 subiu a 12,95%, sinalizando que o mercado também passou a estimar uma Selic terminal mais elevada ao fim do ciclo de afrouxamento.
Para entender o movimento nos juros futuros, é importante distinguir dois fatores que atuaram simultaneamente nesta sexta. O primeiro é estrutural: a alta do petróleo gerada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde transita cerca de 20% do petróleo produzido no mundo, eleva diretamente as perspectivas de inflação. Com o escoamento ainda não retomado e com ataques iranianos a refinarias de outros países na região comprometendo a oferta, o choque de oferta de energia deixou de ser pontual e passou a ser tratado como um risco de duração incerta. Quando a inflação esperada sobe, os juros futuros sobem junto, porque o mercado exige prêmio adicional para carregar ativos de renda fixa em um ambiente de maior incerteza inflacionária.
O segundo fator é técnico. Marcelo Fonseca, economista do Grupo CVPAR, explica que em momentos de estresse geopolítico a liquidez no mercado de DI cai abruptamente e o mercado tende a se tornar unidirecional: poucos investidores estão dispostos a tomar a ponta contrária, ou seja, a apostar na queda dos juros, o que amplifica qualquer movimento de alta.
“Dificilmente vai surgir muita gente querendo tomar a ponta contrária neste momento”, afirmou Fonseca. Esse fenômeno foi particularmente visível nesta sessão: mesmo com o dólar recuando de forma acentuada na segunda etapa do pregão — o que em condições normais tenderia a aliviar os juros —, as taxas seguiram subindo, o que economistas interpretam como sinal de que investidores posicionados para uma queda dos juros decidiram encerrar essas posições para evitar prejuízos maiores, movimento conhecido no jargão do mercado como “stop”. Esse encerramento de posições, por sua vez, pressiona adicionalmente as taxas para cima, criando um ciclo que se retroalimenta enquanto a incerteza persiste.
Um economista de uma grande tesouraria consultado pela Broadcast confirmou essa leitura. Segundo ele, mesmo ajustando as variações pela volatilidade típica de cada ativo, os juros futuros apresentaram desempenho proporcionalmente pior do que a Bolsa e o câmbio nesta sexta, o que reforça a hipótese de que o movimento foi em parte técnico. “Se continuar assim, é um corte de 25 pontos, ou zero”, resumiu o especialista.
Nos números do fechamento, o contrato de DI para janeiro de 2027 encerrou a 13,67%, ante 13,505% no ajuste de quinta-feira. O DI para janeiro de 2029 foi a 13,3%, vindo de 13,079%. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,469% para 13,715%. No acumulado semanal, o deslocamento da curva foi ainda mais expressivo: o DI para janeiro de 2027 subiu 39 pontos-base em relação ao fechamento da sexta anterior, o DI para janeiro de 2029 saltou 65 pontos-base e o DI para janeiro de 2031 disparou 68 pontos-base, evidenciando que o choque geopolítico produziu um repricing generalizado e de grande magnitude ao longo de toda a curva de juros brasileira na semana.










