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Raízen culpa juros altos no Brasil e crise na Argentina por recuperação extrajudicial

A empresa diz que investiu em expansão quando o cenário era favorável mas juros acima de 12% por 20 meses e a crise argentina tornaram insustentável o serviço

A Raízen atribuiu formalmente ao ambiente de juros elevados no Brasil e à deterioração econômica da Argentina as causas da crise financeira que a levou a protocolar pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 65 bilhões em dívidas. Em nota divulgada pela companhia, a empresa garantiu que o processo não afeta suas operações nem as relações com clientes e fornecedores, ressaltando que a Raízen é a maior produtora de cana-de-açúcar do mundo e a segunda maior distribuidora de combustíveis do Brasil.

No documento protocolado pelos advogados da companhia, a Raízen descreve uma sequência de decisões de investimento tomadas em um contexto macroeconômico substancialmente mais favorável do que o atual. Nos últimos anos, a empresa realizou aquisições de operações na Argentina e no Paraguai, formou parceria para explorar as lojas de conveniência Oxxo e entrou no segmento de energia, além de investir em novas plantas de biocombustíveis como parte de uma estratégia para se consolidar como produtora global de combustíveis renováveis. O problema, segundo a companhia, foi a reversão das condições que sustentavam essa estratégia.

No Brasil, a taxa básica de juros ficou acima de 12% por 20 meses consecutivos, chegando a 15% nos últimos oito meses, o que elevou de forma significativa o custo financeiro da dívida, comprometeu a geração de caixa e impediu a redução orgânica do endividamento. Na Argentina, a inflação persistentemente superior a 40% ao ano e a volatilidade macroeconômica pressionaram os custos operacionais e a dinâmica de precificação dos produtos da companhia no país. O efeito combinado dos dois choques criou o que a Raízen descreve como um círculo vicioso: com a piora da situação de liquidez, credores e parceiros operacionais passaram a cortar, encarecer ou restringir o crédito disponível à empresa, agravando ainda mais o problema que buscavam mitigar.

Os números ilustram a magnitude do estresse financeiro. Nos próximos 24 meses, a Raízen tem compromissos de amortização de dívida de aproximadamente R$ 13 bilhões. Entre abril e dezembro de 2025, a empresa consumiu R$ 7,2 bilhões em caixa apenas para manter suas operações em funcionamento. A relação entre dívida líquida e Ebitda chegou a 5,5 vezes, patamar considerado elevado para o setor.

O plano de reestruturação desenhado pela Raízen e seus assessores combina quatro elementos. A Shell, uma das sócias da joint venture, comprometeu-se a aportar R$ 3,5 bilhões na companhia. O empresário Rubens Ometto, controlador da Cosan, a outra sócia, anunciou aporte de R$ 500 milhões. Credores serão convidados a converter cerca de 40% da dívida em ações da companhia, embora essa conversão ainda dependa de negociações. E a operação da Raízen na Argentina será colocada à venda, com objetivo de levantar até US$ 1 bilhão, equivalente a aproximadamente R$ 5,1 bilhões, até abril. Com essas medidas, a expectativa é reduzir a alavancagem de 5,5 vezes para uma faixa entre 2,5 e 3 vezes o Ebitda, segundo fonte a par das discussões.

A recuperação extrajudicial prevê a suspensão por 180 dias de cobranças e execuções de dívidas enquanto os sócios e credores negociam os termos definitivos da reestruturação. A Shell afirmou em nota que apoia a decisão da gestão da Raízen e classificou o processo como uma medida prudente e necessária para enfrentar os desafios financeiros da companhia. Além dos fatores macroeconômicos, a empresa citou impactos adicionais na geração de caixa decorrentes de questões climáticas, redução da produção de etanol no Brasil e aumento da concorrência com açúcar asiático e etanol de milho brasileiro.

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