A Polícia Federal identificou indícios de que um ex-diretor da Comissão de Valores Mobiliários, Henrique Machado Moreira, teria favorecido indevidamente o banqueiro Daniel Vorcaro durante sua atuação no órgão regulador e, meses após deixar o cargo, passou a integrar o escritório de advocacia Warde, que prestava serviços ao Banco Master e ao próprio Vorcaro. As suspeitas constam de relatórios da segunda fase da Operação Compliance Zero, obtidos pelo Estadão.
O caso tem origem em uma operação financeira realizada em 2019 envolvendo a emissão de debêntures da empresa Centara. Segundo a PF, essa operação foi manipulada para desviar valores do sistema financeiro em favor de cotistas do próprio Banco Master, captando irregularmente cerca de R$ 22 milhões. O episódio é citado pelos investigadores como parte de um histórico de suspeitas de crimes financeiros cometidos por Vorcaro ao longo dos anos, com uma estratégia recorrente de direcionar recursos a empresas sem capacidade econômica para depois transferi-los ao patrimônio pessoal do banqueiro e de seus familiares.
A CVM abriu apuração sobre o caso e confirmou a existência de irregularidades. Os envolvidos propuseram um termo de compromisso, mecanismo pelo qual pagam uma multa para encerrar o processo sem punição formal. A área técnica da comissão emitiu parecer recomendando a rejeição das propostas. Henrique Machado, então diretor, foi designado relator do caso. Após solicitar prazo adicional de análise, o diretor retornou ao colegiado apresentando proposta de aceitação dos termos de compromisso, em sentido contrário ao parecer técnico. A CVM acatou a posição do relator e Vorcaro pagou uma multa de R$ 250 mil para encerrar o processo.
A PF destaca a proximidade entre esse voto, proferido perto do encerramento do mandato de Machado, e sua transição para o setor privado. Aproximadamente seis meses após o voto favorável ao acordo, o ex-diretor deixou a CVM e passou a integrar o escritório Warde Advogados, que prestava serviços ao Banco Master e a Vorcaro. Em outubro de 2022, já como advogado do Warde, Machado participou de reunião na presidência da CVM sobre o Master acompanhado de Walfrido Warde e do próprio Vorcaro. O tema registrado na agenda foi apresentação institucional. A ata da reunião foi anexada pela PF ao inquérito.
Procurado, Henrique Machado negou irregularidades. Afirmou que nunca manteve contato com advogados do Master antes de deixar a CVM, que jamais recebeu proposta de trabalho do banco enquanto era diretor e que o termo de compromisso de Vorcaro foi aprovado pela comissão após sua saída do órgão. O escritório Warde também negou irregularidades, afirmando que a contratação de Machado cumpriu todos os parâmetros legais de quarentena e que não houve infrações éticas. A investigação da PF não solicitou diligências contra Machado nem se aprofundou sobre sua atuação na época em que era diretor da CVM. Machado integra até hoje o quadro do escritório Warde, que deixou a defesa de Vorcaro em janeiro.
O caso de Machado não é o único envolvendo o órgão regulador a gerar questionamentos no contexto do caso Master. Otto Lobo, advogado que atuou como presidente interino da CVM por seis meses até o fim de 2025 e foi indicado pelo presidente Lula para assumir o cargo em caráter permanente, levantou preocupações no mercado financeiro por supostamente ter freado decisões desfavoráveis a Vorcaro e a empresários próximos durante sua gestão interina. Uma representação do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União chegou a contestar sua indicação, mas o processo foi arquivado pela corte. A data da sabatina de Lobo na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado ainda não foi marcada.










