O IPCA de fevereiro ficou acima das expectativas do mercado e reforçou a avaliação de que o Banco Central deverá adotar postura cautelosa no início do ciclo de redução da Selic. O índice subiu 0,70% no mês, ante 0,33% em janeiro, acumulando 1,03% no ano e 3,81% em 12 meses, desaceleração em relação aos 4,44% do período anterior, mas com deterioração qualitativa que preocupa os analistas. O Copom se reúne nos dias 17 e 18 de março para definir a nova taxa de juros, e o dado de fevereiro chega em momento sensível para o calibre do primeiro corte do ciclo.
A composição do índice foi o ponto central das críticas dos economistas. Gabriel Pestana, da Genial Investimentos, afirmou que o qualitativo apresentou deterioração na margem, com pressão concentrada especialmente em serviços e nos núcleos de inflação, que excluem itens mais voláteis como alimentos e energia e são considerados termômetros mais precisos da inflação subjacente. Segundo ele, o resultado fortalece as apostas de um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, em vez de 0,50 ponto, sinal de que o BC deverá iniciar o afrouxamento monetário em passos mais curtos do que parte do mercado esperava.
Mariana Rodrigues, da SulAmérica Investimentos, reforçou essa avaliação. Segundo ela, a inflação de serviços permaneceu pressionada e os itens que vinham ajudando a reduzir as projeções para o índice anual, como alimentação no domicílio e bens industriais, não confirmaram a tendência de alívio em fevereiro. A economista projeta IPCA de 4,1% em 2026, mas admite que o cenário passou a ter viés de alta diante da pressão recente nos preços do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio.
Pablo Spyer, da Ancord, destacou que o resultado evidencia resistência da inflação ligada à atividade doméstica, com pressão em cursos, passagens aéreas e seguros. Ele observou que houve algum alívio em combustíveis após a redução de preços promovida pela Petrobras nas refinarias no fim de janeiro, mas alertou que o índice ainda não captura a alta recente do petróleo, que voltou a rondar os US$ 100 por barril diante das tensões no Oriente Médio e das interrupções no transporte marítimo pelo estreito de Ormuz. Esse risco prospectivo adiciona uma camada de incerteza ao cenário inflacionário para os próximos meses.
Claudia Moreno, do C6 Bank, apontou que passagens aéreas e educação tiveram contribuição relevante para o resultado de fevereiro, enquanto a gasolina recuou 0,61%. Ela explicou que a desaceleração do acumulado em 12 meses se deve em parte a um efeito estatístico: a alta expressiva de fevereiro de 2025 saiu da base de comparação, reduzindo artificialmente o acumulado mesmo sem melhora estrutural dos preços. Os serviços subjacentes, segundo ela, seguem em patamar elevado, com alta de aproximadamente 5,5% em 12 meses até fevereiro, diferença em relação ao índice cheio que ajuda a explicar por que a convergência da inflação à meta ainda representa um desafio para a política monetária.
Moreno projetou que o Copom iniciará o ciclo de cortes com redução de 0,25 ponto percentual na Selic, levando a taxa para 14,75%, com os juros encerrando 2026 em 12,5%. O C6 Bank projeta IPCA de 4,5% no ano, acima do centro da meta. Entre os riscos à frente, a economista citou mercado de trabalho aquecido, possível desvalorização do real e as tensões geopolíticas como vetores que podem pressionar a inflação nos próximos meses.









