O mercado acionário brasileiro registrou uma forte reversão no fluxo estrangeiro nas últimas semanas, em meio ao aumento das incertezas globais, à reprecificação dos juros internacionais e ao avanço de riscos políticos domésticos. Levantamento do JPMorgan aponta que mais de R$ 17 bilhões deixaram a Bolsa brasileira entre 15 de abril e 12 de maio.
O movimento representa aproximadamente 25% dos recursos estrangeiros que haviam ingressado no mercado acionário nacional desde o início do ano. Segundo o banco, as retiradas ocorreram de forma concentrada, com saídas líquidas em 16 dos 18 pregões analisados.
Até meados de abril, o fluxo internacional para a Bolsa brasileira havia acumulado entrada próxima de R$ 70 bilhões, impulsionado pela busca por mercados ligados a commodities e pela percepção de ativos descontados em economias emergentes. O JPMorgan avalia, porém, que o cenário externo mudou de forma relevante nas últimas semanas.
De acordo com o relatório, a correção recente possui origem majoritariamente internacional. Entre os fatores apontados estão a migração global de recursos de setores ligados a commodities para empresas de tecnologia, a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e o ambiente de menor apetite global por risco.
O banco destaca que, após a sinalização de cessar-fogo no Oriente Médio, investidores passaram a reduzir exposição a mercados dependentes de petróleo, mineração e materiais básicos. Como a Bolsa brasileira possui forte concentração nesses segmentos, o movimento acabou ampliando as saídas de capital do país.
Além disso, o JPMorgan observa que o Federal Reserve e outros bancos centrais adotaram discurso mais rígido diante da persistência inflacionária e da resiliência do mercado de trabalho nos Estados Unidos. A alta dos Treasuries reduziu a atratividade relativa de ativos considerados mais voláteis, incluindo mercados emergentes.
O câmbio também passou a influenciar a percepção dos investidores estrangeiros. Segundo o relatório, a valorização acumulada do real até níveis próximos de R$ 4,90 por dólar reduziu o potencial adicional de apreciação da moeda brasileira e aumentou o risco percebido de correção cambial.
Internamente, o banco avalia que a condução da política monetária pelo Banco Central também contribuiu para a reprecificação dos ativos locais. A expectativa de cortes mais lentos da Selic e o risco de interrupção do ciclo de flexibilização elevaram o desconforto dos investidores em relação ao mercado brasileiro.
O relatório também menciona o impacto de notícias recentes envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o ambiente político e financeiro. Segundo o JPMorgan, o episódio passou a influenciar apostas eleitorais e aumentou o nível de incerteza política observado pelo mercado.
A instituição afirma que a reação política começou a alterar probabilidades em plataformas de apostas relacionadas à corrida presidencial. O banco avalia que o ambiente político pode ganhar maior relevância para os ativos brasileiros ao longo dos próximos meses, especialmente diante da proximidade do calendário eleitoral.
Mesmo com a saída recente de recursos, o JPMorgan ressalta que episódios anteriores de retirada acelerada de capital estrangeiro da Bolsa brasileira costumaram ser relativamente curtos. O banco analisou os últimos dez anos e identificou 12 períodos de fuga superior a R$ 10 bilhões em janelas de 15 dias.
Ainda assim, os estrategistas afirmam que o atual ciclo possui características distintas devido ao elevado volume de entrada acumulado anteriormente, o que cria espaço para novas realizações sem necessariamente eliminar totalmente a posição estrangeira no país.
No cenário externo, o banco condiciona uma retomada mais consistente do fluxo para mercados emergentes à redução das tensões geopolíticas, queda dos preços do petróleo e recuo dos rendimentos dos títulos americanos. Entre os fatores acompanhados está a situação do Estreito de Ormuz, considerado estratégico para o mercado global de energia.
Apesar da cautela de curto prazo, o JPMorgan destaca que o mercado brasileiro voltou a negociar com múltiplos considerados descontados. O índice preço/lucro projetado para os próximos 12 meses está em 8,7 vezes, patamar 17% inferior ao observado antes do conflito no Oriente Médio e abaixo da média histórica.
Segundo o banco, alguns segmentos começam a apresentar oportunidades seletivas, principalmente em empresas financeiras, exportadoras e do setor de energia, áreas que podem se beneficiar de eventual desvalorização cambial e volatilidade internacional.










