Nos últimos anos, quem acompanhava o mercado financeiro via dois universos praticamente separados. De um lado estavam os ativos tradicionais, como ações, ETFs e títulos públicos. Do outro, Bitcoin, Ethereum, stablecoins e outros ativos digitais.
Essa divisão começa a diminuir com o avanço das chamadas ações tokenizadas, que levam ativos do mercado tradicional para a infraestrutura da blockchain. A tokenização permite uma nova forma de negociar e movimentar esse ativo. “É parecido com o que o Pix fez com o dinheiro. O real continuou sendo o mesmo, mas a forma como ele circula mudou completamente. A tokenização possibilita fazer algo semelhante com ativos financeiros”, explica Pedro Fontes, analista de Research do Mercado Bitcoin.
O grande caso de uso das ações tokenizadas é poder representar ações ou ETFs tradicionais registradas em blockchain, ou seja, de forma digital. Elas acompanham o desempenho de ativos conhecidos do mercado financeiro, como empresas de tecnologia ou índices de ações americanos, permitindo que esses investimentos passem a circular em uma infraestrutura digital.
Dependendo da estrutura de cada produto, o investidor pode ter acesso aos mesmos direitos econômicos do ativo original, como a variação de preço e, em alguns casos, dividendos. É importante destacar, porém, que comprar uma ação tokenizada nem sempre significa se tornar acionista direto da empresa. Em muitos casos, o investidor possui uma exposição econômica ao ativo por meio da estrutura criada pela plataforma emissora.
Por que esse mercado chama atenção?
Embora ainda represente uma parcela muito pequena do mercado financeiro global, o crescimento da tokenização tem chamado atenção. Hoje, o mercado de ações tokenizadas movimenta aproximadamente US$ 1,94 bilhão em ativos distribuídos, enquanto o mercado acionário mundial supera US$ 126 trilhões.
Apesar da diferença de escala, a atividade já demonstra sinais de amadurecimento. O setor movimenta cerca de US$ 8,9 bilhões em transferências mensais, volume mais de quatro vezes superior ao valor atualmente distribuído. “Isso mostra que os ativos tokenizados não estão apenas sendo emitidos, mas efetivamente negociados. Ainda é um mercado pequeno, mas já apresenta dinâmica de uso”, explica Fontes.
Quais são as vantagens da tokenização?
Entre os principais diferenciais das ações tokenizadas está a possibilidade de negociar esses ativos em uma infraestrutura baseada em blockchain, que pode oferecer operações praticamente 24 horas por dia, liquidação mais rápida e acesso a frações menores de ativos. Além disso, por serem nativas do ambiente digital, elas podem ser transferidas entre carteiras e integradas a outras soluções do ecossistema cripto, como stablecoins e aplicações de finanças descentralizadas (DeFi). “Essas características têm potencial para ampliar o acesso ao mercado financeiro e tornar a circulação dos ativos mais eficiente, sem alterar sua natureza econômica”, explica Fontes.
O que ainda limita esse mercado?
Apesar do avanço da tecnologia, o principal desafio ainda é regulatório. Como ações são ativos altamente regulados, ainda existem discussões sobre regras de emissão, custódia, direitos dos investidores e supervisão das plataformas.
“O principal desafio hoje não é tecnológico. A infraestrutura já existe. O que falta é maior clareza regulatória para que mais instituições e investidores possam operar com segurança”, afirma Fontes.
Por que esse tema deve ganhar espaço?
Grandes empresas e plataformas especializadas já começaram a desenvolver soluções para esse mercado, enquanto redes blockchain como Ethereum e Solana concentram parte importante dessa infraestrutura.
Para o especialista do MB, a tendência é que a tokenização avance gradualmente à medida que novas regras sejam estabelecidas e instituições financeiras ampliem sua participação. “A próxima fase do mercado de ativos digitais pode não ser marcada apenas pelo surgimento de novos tokens. Ela também pode envolver ativos tradicionais, como ações e ETFs, circulando em uma infraestrutura global baseada em blockchain.”










