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Inflação de junho desacelera e mercado amplia aposta em corte de juros

Inflação surpreende com desaceleração em alimentos e serviços, derruba juros futuros e reforça expectativa de redução da Selic

O IPCA de junho registrou variação de 0,16%, resultado expressivamente abaixo da mediana das expectativas do mercado, que projetava alta de 0,31%. No acumulado em 12 meses, a inflação recuou de 4,72% para 4,64%. A surpresa foi generalizada — e positiva em múltiplos componentes, gerando reação imediata nos mercados: as curvas de juros passaram a operar em queda em praticamente todos os vértices, descolando do cenário global.

Para Sara Paixão, Analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, a grande surpresa do mês veio do grupo de alimentação e bebidas, que registrou deflação de 0,24% — contra uma projeção de alta de 0,35%. Café moído, frutas e carnes foram os principais vetores de queda. No lado da alta, a principal pressão individual ficou com a energia elétrica residencial, que avançou 1,53%, reflexo da bandeira amarela vigente e de reajustes em diversas cidades. A abertura dos dados também agradou: o núcleo avançou 0,21%, abaixo da expectativa de 0,33%; serviços subiram 0,34%, contra projeção de 0,43%; e o índice de difusão recuou de 65% em maio para 54% em junho — sinal de que a inflação perdeu amplitude. “O indicador pode contribuir para o Copom justificar um corte de 25 pontos-base na taxa Selic na próxima reunião, conforme o esperado pelo mercado”, avalia a analista.

André Valério, economista sênior do Inter, vai além e afirma que a inflação de junho surpreendeu “muito além do esperado”, reforçando a visão positiva já sinalizad pelo IPCA-15. Para ele, o dado mostrou que o processo inflacionário da economia brasileira não aparenta estar reacelerando — e que as altas recentes foram genuinamente causadas pelas condições adversas de oferta em combustíveis e alimentos. “A pressão altista recente foi amplamente influenciada pelas condições adversas de oferta em combustíveis e em alimentos. Com a normalização do preço do petróleo e o período sazonal de baixa de alimentos, devemos ter leituras mais amenas nos próximos meses”, avalia.

Leonardo Costa, economista do ASA, reforça a leitura e acrescenta que um resultado tão positivo para a inflação era esperado apenas para julho. Na sua avaliação, a inflação subjacente também mostrou sinais de melhora consistentes, com a média dos núcleos registrando a menor variação mensal desde setembro de 2025. “O destaque maior ficou por conta do núcleo de serviços, em particular para os serviços de alimentação, que perderam força na margem”, indicou.

Matheus Pizzani, economista do PicPay, aprofunda a análise qualitativa do dado. Ele destaca que a deflação em alimentação foi abrangente, alcançando tanto itens voláteis — como frutas (-1,58%) e hortaliças e verduras (-0,39%) — quanto componentes com comportamento historicamente mais rígido, como o grupo de carnes (-0,64%). O economista alerta, no entanto, que itens como cereais, leguminosas e oleaginosas (+1,61%) e tubérculos, raízes e legumes (+1,29%) impediram uma queda ainda mais intensa do grupo — e que a volatilidade desses componentes sugere possível correção positiva para julho. No grupo de serviços, Pizzani destaca a desaceleração de 0,40% em maio para 0,34% em junho, com destaque para a inversão de comportamento: itens mais sensíveis à inércia, como mudança (+2,72%), performaram abaixo dos pares mais ligados à atividade corrente, com alguns fechando no campo deflacionário, como costureira (-0,18%) e depilação (-0,48%). Nos bens industriais, a desaceleração de 0,32% para 0,11% foi puxada pela deflação de 0,79% em eletrodomésticos e equipamentos.

Para os próximos meses, a perspectiva dos especialistas é majoritariamente positiva. Pizzani aponta que fatores sazonais favorecem a manutenção do bom comportamento da alimentação no domicílio, a bandeira tarifária de energia elétrica deve permanecer no patamar amarelo por mais um mês e o pagamento do bônus de Itaipu em agosto traz boa perspectiva para o grupo de habitação.

A subvenção governamental para gasolina e diesel também deve evitar novas turbulências nos combustíveis. Do ponto de vista dos núcleos, a forte deflação do IGP nos industriais, combinada com o nível ainda relativamente alto de ociosidade do setor, deve postergar a retomada da pressão inflacionária para períodos subsequentes. O economista do PicPay mantém expectativa de mais um corte de 25 pontos-base na próxima reunião do Copom e projeta nível de juros terminal de 13,50% em 2026.

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