A deflação maior que a esperada pelo mercado em agosto reforçou a expectativa de continuidade do ciclo de cortes da Selic e provocou queda nas taxas dos contratos de juros futuros de curto prazo. O movimento doméstico encontrou apoio adicional no recuo do petróleo, embora a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos tenha limitado o fechamento da curva brasileira.
O IPCA-15 caiu 0,40% em agosto, depois de avançar 0,06% em julho. Em 12 meses, a prévia da inflação oficial desacelerou para 4,24%, aproximando-se do limite superior do intervalo de tolerância da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%. O centro da meta é de 3%.
A reação apareceu rapidamente nos contratos de Depósito Interfinanceiro. A taxa para janeiro de 2027 recuou 3 pontos-base após a divulgação do indicador e chegou a 13,65% na mínima do dia, ante 13,68% no fechamento anterior.
Para Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, a queda dos DIs refletiu principalmente a surpresa com uma deflação mais intensa do que a projetada. A leitura aumenta a percepção de que o processo de desinflação pode oferecer espaço adicional para o Banco Central reduzir os juros, atualmente em 14% ao ano.
Segundo Serrano, a curva passou a incorporar aproximadamente 90% de probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual na próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). O mercado também atribui cerca de 30% de chance a outra redução na reunião seguinte, em novembro. O ciclo de flexibilização monetária teve início em março.
Para a atividade econômica, a continuidade dos cortes pode reduzir gradualmente o custo do crédito e aliviar as condições financeiras para famílias e empresas. A velocidade desse processo, entretanto, dependerá não apenas dos próximos indicadores de inflação brasileira, mas também do comportamento dos juros internacionais.
Nos Estados Unidos, os dados divulgados nesta quarta-feira trouxeram uma leitura menos favorável. O índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE) avançou 0,2% em julho. Em 12 meses, a inflação ficou em 3,7%, acima dos 3,6% esperados por economistas consultados pela Reuters e distante da meta de 2% do Federal Reserve.
O núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia, também subiu 0,2% no mês e acumulou avanço de 3,3% em 12 meses. A persistência da inflação americana pressionou os Treasuries e reduziu parte do espaço para uma queda mais acentuada dos juros futuros brasileiros.
James Knightley, economista-chefe internacional do ING, avalia que a inflação americana continua convergindo lentamente para a meta. Entre os fatores que podem favorecer a desaceleração nos próximos meses estão o crescimento mais fraco dos salários, a moderação dos aluguéis e a estabilidade dos preços de energia.
O ING trabalha com a perspectiva de manutenção dos juros americanos até meados de 2027. Atualmente, a taxa do Federal Reserve está entre 3,50% e 3,75% ao ano.
Para o Brasil, a combinação dos dois cenários será determinante para os próximos movimentos da curva. A inflação doméstica mais baixa fortalece a possibilidade de redução da Selic, mas juros elevados nos Estados Unidos mantêm pressão sobre ativos emergentes e podem limitar o ritmo de flexibilização monetária pelo Banco Central.









