A decisão do Banco Central de liquidar a Trustee e a Banvox abriu uma nova etapa para fundos que, juntos, somavam R$ 30,5 bilhões sob administração em julho. O volume consta de dados da Anbima e inclui veículos que não possuem relação com as investigações envolvendo o Banco Master.
As duas distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs) pertencem a Maurício Quadrado, ex-sócio do Master e alvo de busca e apreensão na segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em janeiro.
A liquidação não implica perda automática dos recursos administrados pelas instituições. Nos fundos que não estão relacionados às apurações, a administração poderá ser transferida para outras empresas autorizadas. Por serem DTVMs, Trustee e Banvox não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Antes da decisão do BC, algumas estruturas administradas pelas instituições já estavam no radar das investigações. Cerca de duas semanas antes da liquidação, Eduardo Félix Bianchini, liquidante do Banco Master e do Letsbank, pediu à Banvox informações sobre aplicações associadas a Daniel Vorcaro.
A apuração procura esclarecer estruturas de investimento formadas por diferentes camadas de fundos que teriam sido utilizadas para movimentar e ocultar recursos. Entre os veículos examinados está o Dublin Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC).
Segundo ação apresentada pelo liquidante do Master, o Dublin é integralmente detido pela Jaguar Horizon, controlada pela Jaguar Cayman. Esse último veículo teria sido utilizado por Vorcaro para remeter recursos ao exterior. Uma das questões investigadas é se o Dublin realizou aplicações em carteiras administradas pela Trustee e pela Banvox.
O fundo também possui precatórios relacionados ao antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), créditos indenizatórios cobrados por usinas de açúcar e álcool contra a União. O portfólio é administrado pela Sefer Investimentos, que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em junho e também é investigada pela Compliance Zero por operações relacionadas a Vorcaro.
Maurício Quadrado já havia sido afetado pela liquidação de outra instituição. O Banco Central decretou anteriormente a liquidação do Letsbank, antigo Bluebank, junto com outras empresas relacionadas ao Master.
Trustee e Banvox também apareceram nas apurações da Operação Carbono Oculto, que investiga suspeitas de utilização de estruturas financeiras para lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio por organização criminosa. Quadrado não foi alvo dessa operação.
A Trustee afirmou que havia renunciado à administração de todos os fundos posteriormente atingidos pela Carbono Oculto antes da deflagração da operação. Segundo a empresa, a decisão ocorreu devido a problemas de atualização cadastral identificados meses antes.
Já a Banvox administrava pelo menos um veículo investigado nessa operação: o fundo imobiliário Los Angeles 1, posteriormente denominado Lucerna, que entrou no radar das autoridades por suspeitas de ligação com o crime organizado.
Outro investidor que mantinha recursos administrados pela Trustee era Nelson Tanure, alvo da segunda fase da Compliance Zero. A maior parte dos investimentos do empresário, contudo, havia sido transferida antes da liquidação da instituição.
Trustee e Banvox negam irregularidades na estrutura de suas operações e afirmam não ter violado regras do mercado de capitais. As empresas também dizem que nunca foram notificadas pelo Banco Central para realizar enquadramentos relacionados a problemas dessa natureza e que vinham fornecendo as informações solicitadas pela autoridade monetária sobre as investigações do caso Master.
Com a liquidação, os fundos que não estejam vinculados às apurações poderão passar para novos administradores. Já os veículos citados nas investigações permanecem sujeitos à análise das autoridades, que buscam reconstruir o caminho dos recursos e identificar eventuais responsabilidades nas operações relacionadas ao Banco Master.









