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Morgan Stanley vê dólar a R$ 4,50 com melhora do cenário fiscal

Banco avalia que melhora das expectativas fiscais pode fortalecer o real e reduzir juros antes mesmo de aparecer nas contas públicas

O Morgan Stanley avalia que uma mudança consistente nas expectativas sobre as contas públicas pode provocar queda dos juros e valorização do real antes mesmo de o Brasil apresentar uma melhora efetiva nos resultados fiscais. Em cenário condicionado à apresentação de um plano crível para as contas públicas, o banco vê possibilidade de o dólar caminhar para R$ 4,50 no primeiro trimestre de 2027.

A análise foi divulgada nesta segunda-feira (5), após o primeiro turno das eleições presidenciais. Para os economistas Ana Madeira e Thiago Machado, a reação dos mercados pode antecipar os efeitos de um eventual programa de consolidação fiscal, mesmo que a redução dos déficits e a estabilização da dívida levem vários anos para aparecer nos indicadores.

O banco chama essa dinâmica de “choque de gradualismo”: o ajuste das contas públicas ocorreria progressivamente, enquanto preços de ações, câmbio e juros poderiam reagir de maneira muito mais rápida à percepção de que a trajetória fiscal mudou. A forte movimentação desta segunda-feira já mostra parte desse mecanismo, com valorização da Bolsa e do real e queda expressiva das taxas dos contratos de juros futuros.

A avaliação do Morgan Stanley considera o resultado do primeiro turno, no qual Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 45,16%. O banco também incorpora à análise o avanço de partidos de centro e de direita no Congresso, mas ressalta que uma melhora fiscal dependerá de medidas concretas e da capacidade do próximo governo de aprová-las e executá-las.

O desafio começa pela própria estrutura das contas públicas. Segundo os números utilizados pelo Morgan Stanley, mais de 91% das despesas são obrigatórias, reduzindo a parcela do Orçamento disponível para ajustes. O banco também aponta uma dívida em trajetória crescente e avalia que novas exceções às regras de gastos diminuíram a capacidade de o atual arcabouço conter o avanço das despesas.

Nesse ambiente, a composição do Congresso pode facilitar ou dificultar mudanças, mas não elimina a necessidade de articulação política. Reformas fiscais dependerão da formação de maiorias parlamentares e da capacidade do Executivo de construir apoio para medidas que afetem receitas e despesas.

O Morgan Stanley trabalha com cenários bastante diferentes para mostrar o impacto que a política fiscal pode exercer sobre juros e dívida. Na hipótese mais favorável considerada pelo banco, a Selic poderia cair para 9,75% em 2027 e a dívida bruta entraria em trajetória de estabilização ao longo do horizonte analisado.

No cenário pessimista, a ausência de um plano fiscal capaz de recuperar a confiança produziria o movimento contrário. A Selic poderia chegar a 15,5% em 2027, enquanto a dívida bruta ultrapassaria 100% do PIB até 2033. As duas trajetórias são cenários elaborados pelo Morgan Stanley, e não previsões de que esses níveis necessariamente serão alcançados.

O risco, nesse segundo caso, seria uma combinação de crescimento econômico fraco, inflação persistente e juros elevados. Uma piora da percepção fiscal tende a aumentar o retorno exigido pelos investidores para financiar o país, pressionar o câmbio e reduzir o espaço disponível para cortes da taxa básica. Com juros maiores, o custo de carregamento da dívida também aumenta, dificultando sua estabilização.

No cenário de melhora das expectativas, o banco enxerga a dinâmica inversa. Além do dólar próximo de R$ 4,50 no primeiro trimestre de 2027, as taxas dos contratos de juros futuros com vencimento em janeiro de 2029 poderiam caminhar em direção a 11%. Esses níveis, segundo a instituição, dependeriam da apresentação de um programa fiscal convincente e de condições internacionais relativamente estáveis.

A reação do mercado ao primeiro turno já antecipou parte dessa redução dos prêmios. Nesta segunda-feira, as taxas dos contratos futuros mais longos chegaram a cair perto de um ponto percentual, enquanto o real se valorizou mais de 4% e o Ibovespa registrou forte alta.

Para o Morgan Stanley, porém, o resultado eleitoral sozinho não resolve o problema fiscal. Depois do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a atenção deve se voltar para o desenho das medidas econômicas, a formação da equipe responsável pela Fazenda e pelo Planejamento e, principalmente, a capacidade política de transformar propostas de ajuste em medidas efetivamente aprovadas e executadas.

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