Três fundos imobiliários com patrimônio conjunto de aproximadamente R$ 610 milhões continuam sob administração da Master Corretora, mesmo após a liquidação extrajudicial da instituição, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. A situação levou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a instaurar um processo administrativo sancionador contra a EFB Regimes Especiais e Eduardo Félix Bianchini, responsáveis pela condução da liquidação das instituições do grupo Master.
A investigação apura o descumprimento do prazo regulamentar para convocar assembleias destinadas à escolha de novos administradores dos fundos. Pelas regras da CVM, quando uma administradora entra em liquidação extrajudicial, cabe ao liquidante convocar os cotistas para deliberar sobre sua substituição. Caso não haja escolha de uma nova instituição em até 30 dias úteis, o Banco Central deve nomear uma entidade para liquidar o fundo.
Segundo levantamento publicado pelo NeoFeed, os fundos Macam Shopping, CMX Realty III e Reag Recebíveis Imobiliários permanecem vinculados à corretora. A situação afeta investidores institucionais, pessoas físicas e entidades de previdência, que enfrentam dificuldades para negociar suas participações ou substituir os responsáveis pela administração dos recursos.
Fundo de R$ 467 milhões concentra investimentos de institutos de previdência
O Macam Shopping é o maior dos três fundos, com patrimônio líquido de R$ 467 milhões e 120 cotistas, conforme informações encaminhadas à CVM em setembro. Seu único ativo são ações da Blue Malls, empresa com participações em empreendimentos comerciais localizados em Londrina (PR), Vila Velha (ES), Goiânia (GO) e na região metropolitana de Natal (RN).
O Banco de Brasília (BRB) aparece como principal investidor, com participação de 49,9% das cotas, segundo informações citadas pelo NeoFeed. A relação de cotistas também inclui 87 pessoas físicas e 20 investidores classificados como entidades de previdência.
Entre os participantes estão a Serpros, fundo de pensão dos funcionários do Serpro, que investiu R$ 50 milhões em 2012, e institutos de previdência de servidores de pelo menos sete municípios: Betim e Pouso Alegre, em Minas Gerais; Angra dos Reis e Mesquita, no Rio de Janeiro; e Guarujá, Ilhabela e Santo Antônio de Posse, em São Paulo.
Desde março de 2023, a gestão do Macam está sob responsabilidade da empresa atualmente denominada Axor, pertencente a Felipe Mota Separovic Rodrigues. Segundo registros da Receita Federal mencionados na reportagem, o empresário também presidiu a Blue Malls, principal ativo do fundo, entre 2014 e o primeiro semestre de 2026.
Assembleia foi convocada após cobrança da CVM
A tentativa de substituir os responsáveis pelo Macam começou ainda em novembro de 2025, quando a Justiça de São Paulo determinou a convocação de uma assembleia para deliberar sobre a destituição da administradora e da gestora. A decisão ocorreu em processo movido pela Legatus, antiga gestora e cotista do fundo, e também estabeleceu restrições a operações extraordinárias de venda de patrimônio e endividamento.
Nos meses seguintes, outros investidores buscaram providências. A Serpros solicitou à CVM a nomeação de um administrador provisório, enquanto o BRB convocou uma assembleia extraordinária em fevereiro de 2026.
Em 20 de maio, a área técnica da CVM determinou que a administradora convocasse imediatamente uma assembleia de cotistas. Entretanto, a consulta formal somente foi publicada em 10 de agosto, 82 dias depois da intimação.
A votação, concluída em 4 de setembro, manteve a estrutura existente. Os cotistas rejeitaram a proposta da Genial para assumir a administração e a gestão do fundo, assim como a destituição da Axor e a contratação da Legatus como consultora técnica.
A consulta contou com participação equivalente a 93,54% das cotas. A proposta de afastamento da gestora foi rejeitada por 56,25%, enquanto as demonstrações financeiras de 2024, que registraram prejuízo de R$ 196,7 milhões, foram aprovadas por 57,61% dos votos.
A votação também contou com a participação da Vexor, fundo administrado pela Master Corretora e gerido pela própria Axor. O edital vedava votos de prestadores de serviços e partes relacionadas, mas a ata apresentou apenas um resultado consolidado. Conforme os números analisados pelo NeoFeed, a exclusão dos votos da Vexor não alteraria o desfecho.
Investidores enfrentam perdas e falta de liquidez
A situação do Macam é especialmente delicada para os institutos de previdência municipais. Por se tratar de um fundo fechado, não há possibilidade de resgate direto das cotas, restando aos investidores a alternativa de negociá-las na B3.
Entretanto, os papéis são negociados próximos de R$ 100, enquanto o valor patrimonial informado pelo fundo é de aproximadamente R$ 535 por cota. A diferença representa um desconto superior a 80%, agravado pela baixa liquidez no mercado secundário.
O Guarujá Previdência, por exemplo, aplicou R$ 3 milhões no Macam em abril de 2018. Em setembro de 2026, o investimento estava avaliado em R$ 697,7 mil, equivalente a uma perda de 76,7%.
Já o instituto de previdência de Ilhabela registrou em seu estudo de gestão de ativos e passivos de 2026 a dificuldade de vender as cotas e recomendou o desinvestimento conforme surgissem oportunidades. Em Angra dos Reis, o comitê de investimentos do Angraprev também manifestou preocupação com o desempenho do fundo e cobrou alternativas para a aplicação.
Além das dificuldades de negociação, o Macam não distribui rendimentos desde janeiro de 2025. Em agosto, acumulava R$ 26,9 milhões em despesas atrasadas, incluindo aproximadamente R$ 15,6 milhões devidos ao BTG Pactual, antigo administrador.
A insuficiência de caixa também impediu a conclusão da auditoria das demonstrações financeiras de 2025, situação que motivou uma cobrança de providências pela B3. No ano passado, a Blue Malls transferiu à Allos sua participação no Boulevard Shopping Brasília, avaliada em R$ 131,1 milhões, como forma de pagamento de dívidas.
Outros dois fundos também permanecem vinculados ao Master
O CMX Realty III, segundo maior fundo ainda administrado pela Master Corretora, possui patrimônio de R$ 118,2 milhões e um único cotista. Seus recursos estão concentrados em participações na Pedra Histórica Holding, avaliadas em R$ 45,9 milhões, e na CMX Realty SPE, com R$ 72,8 milhões.
Apesar do patrimônio, o fundo apresentava apenas R$ 1.990,53 em caixa no informe de setembro, diante de R$ 267,9 mil em taxas de administração a pagar. O CMX também não realiza distribuição de rendimentos.
Em outubro de 2025, a gestão foi transferida da Smart Agro para a Acura Gestora, que tem entre seus sócios a Sefer DTVM. A instituição também teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, em junho de 2026, após a identificação de problemas econômico-financeiros e violações de normas legais. A corretora foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.
O terceiro fundo, Reag Recebíveis Imobiliários, possui aproximadamente R$ 25 milhões em ativos e passou a ser administrado pela Master Corretora somente depois da liquidação da instituição.
Anteriormente, sua administração estava com a Reag Trust DTVM, posteriormente denominada CBSF DTVM, cuja liquidação foi decretada pelo Banco Central em janeiro de 2026.
Em junho, os cotistas aprovaram a transferência da administração para a Master Corretora, representada por seu liquidante. A gestão ficou inicialmente com a Smart Agro e, em setembro, foi transferida para a Versal Finance, com remuneração máxima mensal de R$ 1 mil.
A transferência ocorreu enquanto o Macam Shopping ainda aguardava uma solução para substituir sua administradora.
Processo administrativo segue em apuração
O procedimento instaurado pela CVM representa o primeiro processo administrativo sancionador registrado contra a EFB Regimes Especiais e Eduardo Félix Bianchini, segundo levantamento do NeoFeed.
A investigação está relacionada ao cumprimento das obrigações regulatórias durante a liquidação da Master Corretora e não representa, por si só, uma conclusão sobre a responsabilidade dos acusados.










