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Especialistas analisam investimentos após o segundo turno

Entre a precificação de Flávio Bolsonaro e as estratégias defensivas para uma vitória de Lula, especialistas do mercado financeiro avaliam os impactos na Bolsa, nos juros e no câmbio

À medida que a disputa do segundo turno das eleições se aproxima da definição, o mercado financeiro opera em estado de máxima atenção, buscando calibrar posições e recalcular riscos diante dos dois cenários possíveis. A percepção dominante é que os preços dos ativos brasileiros já incorporam uma probabilidade considerável de vitória do candidato Flávio Bolsonaro, o que torna eventual confirmação do resultado um evento de menor volatilidade em comparação a uma possível reviravolta a favor de Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao avaliar o nível de precificação atual, Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, ressalta que a assimetria do mercado reflete os movimentos observados desde a primeira etapa da votação. “Eu colocaria aqui que hoje está nos preços do mercado algo como 70% de vitória do Flávio e 30% de vitória do Lula”, diz. Diante disso, Perri aponta que o impacto de uma confirmação nas urnas para o candidato do PL tenderia a impulsionar os ativos domésticos.

“Hoje a maior surpresa para o mercado de longe seria a vitória do Lula. O mercado hoje de novo está colocando no preço uma probabilidade muito maior de vitória do Flávio. Então, uma vitória do Flávio deveria trazer uma valorização adicional à bolsa, na minha visão”, explica Perri. Ele complementa prevendo a reação imediata: “A gente provavelmente veria a bolsa aí superando os patamares daquela semana pós primeiro turno. Então a gente provavelmente veria a bolsa acima de 210 mil pontos e a taxa de câmbio possivelmente aí abaixo de 5 reais”, comenta.

Na mesma linha, Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, avalia que o mercado já embutiu grande parte do cenário de continuidade da agenda liberal. Magno argumenta que a virada de expectativas após a primeira fase ajustou a precificação dos investidores para um quadro de responsabilidade fiscal mais rígida.

“Com uma eventual vitória de Lula, acredito que o mercado vá sentir e muito. Toda precificação que foi feita após o primeiro turno irá voltar, o que irá gerar um efeito muito forte em bolsa, juros e dólar. O mercado precificou uma melhora fiscal, juros menores e um país mais responsável com as contas públicas. Com o Lula, os investidores não possuem essa confiança e iriam devolver todo o resultado”, afirma Magno.

Caso a vitória de Lula se concretize, os especialistas preveem uma reação imediata de alta nas taxas de juros futuras e desvalorização cambial, exigindo uma reestruturação defensiva nas carteiras de investimento. Josias Bento, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, projeta uma alocação mais cautelosa para essa eventualidade.

No tocante ao risco e retorno, Bento enfatiza a necessidade de proteção fora do país: “O melhor risco e retorno seria os investimentos no exterior. Caso o Lula não tenha um plano fiscal para os próximos anos, o dólar pode subir muito e levar a inflação mais para cima”. Em termos de renda fixa, ele observa que os pré-fixados podem sofrer se o mercado elevar as taxas exigidas para financiar o governo, provocando queda nos preços dos títulos existentes.

Lucas Xavier, head da mesa de renda variável e sócio da AW Capital, reforça que a pressão fiscal sobre os títulos públicos seria o grande vetor de volatilidade em um mandato do PT. “Títulos prefixados e os atrelados à inflação inevitavelmente veriam uma desvalorização por conta de sua natureza, já que é esperado uma disparada dos juros futuros em caso de vitória do Lula”, diz.

Diante de taxas de juros mantidas em patamares elevados para conter a inflação e mitigar o risco do crédito público, Xavier pondera que a alocação em renda variável exigirá foco em empresas defensivas e dolarizadas.

“Empresas que têm seus resultados de forma diretamente ligada ao dólar, como Embraer e WEG, poderiam ser opções interessantes em caso de vitória de Lula. Não afeta propriamente a forma que os negócios são feitos, apenas viraria uma questão de receita dolarizada valendo mais em real” comenta. Setores voltados ao consumo doméstico de baixa renda, como Cury e Direcional, também figuram como exceções pontuais pelo benefício direto de programas como o Minha Casa Minha Vida.

Por outro lado, em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, a expectativa de alívio fiscal e queda nos juros futuros abre espaço para o reposicionamento em ativos de maior beta e maior sensibilidade à atividade econômica interna. Para essa conjuntura, Josias Bento destaca a dinâmica entre juros e fundos imobiliários: “Dois ativos podem ter uma melhor performance nesse cenário se a taxa de juros realmente cair, que são os pré-fixados e os fundos imobiliários que são descorrelacionados com a SELIC”.

Do ponto de vista de títulos públicos e ativos sensíveis a crédito sob a gestão de Flávio Bolsonaro, Lucas Xavier sinaliza o Tesouro IPCA+ como uma opção bastante atrativa em termos de risco e retorno: “Tesouro IPCA+ tende a ter o melhor risco e retorno. Mesmo com que o cenário desenhado não se concretize, ainda é uma composição excelente para se ter em carteira”.

Quanto ao mercado acionário, Xavier ressalta papéis alavancados do setor essencial que poderiam passar por forte reprecificação caso o custo de capital recue: “EQTL3 tende a ser uma excelente alternativa de investimento, visto que é uma empresa de altíssima qualidade, do setor de serviços básicos e considerada perene. Adicionalmente, Gabriel Magno reitera a tese central de sensibilidade à curva de juros em uma agenda de corte de gastos e reformas: “Os ativos mais sensíveis serão sempre aqueles indexados aos juros. Como os juros estão muito altos, uma precificação mais amena nas taxas implicaria em ganhos exponenciais pelas empresas”.

Independentemente de quem seja o vitorioso no pleito, os especialistas concordam que a sustentabilidade do otimismo ou do pessimismo inicial do mercado dependerá da capacidade do novo governo em sinalizar um compromisso crível com o equilíbrio das contas públicas, determinante central para o comportamento do dólar, da inflação e das taxas de juros no longo prazo.

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