Atividade EconômicaEconomiaNotíciasPolítica Econômica

Diretor do BC aponta desancoragem de 0,5 p.p. na inflação

BC vê incerteza elevada e evita guidance; inflação tem prêmio de 0,5 p.p. e guerra pressiona expectativas

A avaliação interna do Banco Central do Brasil indica manutenção de um ambiente de elevada incerteza, com deterioração do cenário desde a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Em evento internacional, o diretor Paulo Picchetti afirmou que, apesar de não ter discutido recentemente o quadro com os demais membros do colegiado, o contexto atual permanece desafiador, especialmente diante de fatores externos.

Segundo o diretor, a política monetária restritiva já começa a produzir efeitos sobre a atividade econômica, com sinais de desaceleração na margem. Ainda assim, o desempenho não confirmou projeções mais negativas feitas anteriormente, que indicavam risco de retração mais acentuada em 2026. O quadro atual, segundo ele, não sugere preocupação imediata com uma desaceleração mais intensa.

No campo inflacionário, Picchetti destacou a presença de um prêmio de risco de aproximadamente 0,5 ponto percentual nas expectativas de mercado. Esse movimento de desancoragem, segundo o diretor, está mais associado a incertezas persistentes — como conflitos geopolíticos e dúvidas sobre a trajetória fiscal — do que a uma mudança estrutural em relação à meta de inflação de 3%.

A condução da política monetária permanece condicionada à evolução dos dados. O Banco Central não pretende oferecer sinalização prévia sobre a trajetória da taxa básica de juros, diante da baixa previsibilidade do cenário. Segundo Picchetti, o custo reputacional de indicar um caminho que não se concretize é elevado, o que reforça a opção por decisões dependentes das informações disponíveis.

O diretor também mencionou riscos associados a choques externos, que podem impactar o mercado doméstico em um momento de expectativas já pressionadas. A incerteza quanto à duração e intensidade desses eventos dificulta ajustes mais precisos no balanço de riscos, que segue sem alterações significativas desde 2025.

No mercado de trabalho, o Banco Central identifica sinais iniciais de desaceleração, embora o nível de emprego ainda apresente resiliência. A expectativa é de que a taxa de desemprego possa subir apenas a partir de 2027, refletindo o efeito defasado da política monetária.

Além disso, o aumento da inadimplência, especialmente entre famílias, tem sido monitorado como um fator relevante para a dinâmica do crédito. O fluxo financeiro negativo para o sistema bancário indica maior pressão sobre o orçamento das famílias e potencial impacto sobre o consumo.

A combinação de inflação pressionada, atividade em moderação e cenário externo incerto mantém o Banco Central em postura cautelosa, com decisões condicionadas à evolução dos dados econômicos e dos riscos globais.

Postagens relacionadas

1 of 624