O mês de abril de 2026 se encerra com a economia global operando no que Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, define como um estado de “extrema fragilidade resiliente”. Para o economista, entender o real impacto do conflito entre Estados Unidos e Irã exige olhar além do campo de batalha. O verdadeiro rastro de destruição reside na infraestrutura energética: mais de 40 plantas petroquímicas foram destruídas em sete países, incluindo centros estratégicos como Mahshahr e Assaluyeh. O resultado não é apenas a perda de ativos comerciais, mas uma ruptura estrutural na produção global de polímeros, plásticos e fertilizantes que força dezenas de países a buscar importações emergenciais — desencadeando uma das maiores crises de oferta da história recente.
Os números dimensionam a gravidade do quadro. A perda de 15 milhões de toneladas anuais de capacidade produtiva, somada ao fechamento parcial do Estreito de Ormuz — por onde transita 20% do petróleo mundial —, retirou 10 milhões de barris diários do mercado global e elevou o preço do barril a picos de US$ 113. Para Simioni, o que se observa não é uma oscilação conjuntural, mas uma mudança estrutural no regime de expectativas econômicas. “O verdadeiro impacto não é apenas uma oscilação passageira de preços, mas uma mudança estrutural no regime de expectativas nas economias e em especial na economia americana”, avalia o economista, que cunha o termo “imposto geopolítico” para descrever o mecanismo pelo qual o conflito se infiltra permanentemente na estrutura de custos global e altera a tomada de decisão dos agentes econômicos.
A principal via de transmissão para a economia americana é o choque de oferta nos mercados de energia e insumos. Simioni detalha o alcance do problema: a região do conflito é responsável por 40% das exportações globais de ureia e 28% de amônia — o que significa que o salto nos custos de fertilizantes, que passaram de US$ 516 para US$ 683 por tonelada em apenas uma semana no porto de Nova Orleans, impõe pressão inflacionária direta sobre o agronegócio global. Nos combustíveis, o pass-through é imediato: a gasolina ultrapassou US$ 4 por galão e o diesel atingiu patamares superiores a US$ 5,60. No médio e longo prazo, o economista aponta que a elevação dos custos de transporte e de insumos industriais — como plásticos e produtos químicos — pressiona o núcleo da inflação americana, tornando o processo de desinflação do Federal Reserve significativamente mais penoso. A deterioração das perspectivas de crédito, apontada por agências de rating, reforça esse diagnóstico: os gastos militares recordes combinados com a necessidade de subsidiar os impactos internos do custo de vida sobrecarregam o balanço fiscal americano, em um momento em que o Fed ainda precisa manter taxas restritivas para ancorar as expectativas inflacionárias.
Os dados de atividade global corroboram a leitura de Simioni. Os PMIs de abril revelam uma economia operando em duas velocidades: o setor de serviços demonstra resiliência, enquanto a manufatura sofre contrações significativas, estrangulada pela ruptura nas cadeias de suprimento de energia e insumos químicos. Nos Estados Unidos, o crescimento atingiu o menor patamar em dez meses. Na Zona do Euro, o PMI composto de 50,7 reflete um setor de serviços em arrefecimento — com índice de 50,2 —, mal compensado pela estabilidade manufatureira. O FMI mantém a projeção de crescimento global em 3,1% para 2026, mas o quadro, na avaliação do economista, é de uma atividade crescentemente pressionada pela escalada das commodities e por condições financeiras estruturalmente mais restritivas.
Para cada um dos principais bancos centrais, Simioni traça um cenário específico. No Fed, a expectativa é de manutenção da taxa entre 3,5% e 3,75% durante a maior parte de 2026, com a possibilidade de cortes restrita, no máximo, a uma única redução, a depender da severidade dos efeitos inflacionários de segunda ordem. No Banco Central Europeu, com a inflação medida pelo HICP próxima a 2,5% e pressionada pelos custos de energia, a tendência é de manutenção da taxa em 2%, com viés cauteloso. No Banco da Inglaterra, o mercado já alterou drasticamente suas expectativas, precificando nenhum corte para 2026 diante de uma inflação em torno de 3%. No Banco do Japão, a situação é ainda mais delicada: operando sob dominância fiscal — com dívida sobre PIB de 250% e juros reais negativos, com taxa nominal em 0,75% —, a autoridade enfrenta o desafio de normalizar a política monetária sem comprometer a estabilidade fiscal, com alta probabilidade de um aumento de 25 pontos-base já em abril.
Um ponto central na análise de Simioni é a distinção que o mercado tem negligenciado: acordos de paz não equivalem a recuperação econômica. “Embora as negociações diplomáticas no Oriente Médio tragam alívio imediato aos prêmios de risco nos mercados de futuros, o dano físico à infraestrutura é um game changer para a inflação de longo prazo”, afirma. A interrupção da capacidade produtiva em dezenas de plantas significa que a normalização dos fluxos de petróleo, gasolina, diesel e químicos industriais não ocorrerá de forma simétrica ao encerramento das hostilidades — gerando um vácuo de oferta capaz de sustentar preços elevados por meses. Nesse contexto, o economista aponta que os relatórios mais recentes do Fed identificam a guerra como a fonte primária de incerteza para o setor corporativo, induzindo empresas a adiar decisões de investimento em capital fixo e a reconfigurar cadeias de suprimento do modelo just-in-time para estratégias de just-in-case — transição que eleva os custos operacionais de forma permanente.
Para o Brasil, Simioni identifica um paradoxo singular que define a conjuntura do segundo trimestre de 2026. O país se posiciona como exportador líquido de energia em um mercado global com cadeias de suprimento tensionadas, e o recorde no superávit do setor de petróleo no primeiro trimestre ilustra o windfall gerado pela alta do Brent — com estimativas apontando potencial incremento de dezenas de bilhões de reais para o caixa da União. Esse excedente tem sido fundamental para mitigar a deterioração da balança comercial que, de outra forma, seria pressionada pela valorização dos insumos importados, particularmente os fertilizantes. Contudo, o economista alerta que a resiliência observada não deve ser confundida com melhora nos fundamentos fiscais de longo prazo: há um hiato crescente entre a arrecadação e a rigidez das despesas correntes, e o risco central reside na conversão das receitas temporárias do petróleo em novos gastos permanentes. Para o Banco Central do Brasil, com inflação projetada acima do centro da meta e crescimento moderado entre 1,6% e 1,8%, Simioni espera interrupção do ciclo de afrouxamento e manutenção dos juros em patamares restritivos durante todo o segundo semestre de 2026.
O economista encerra sua análise de abril com três premissas que, em sua avaliação, devem nortear investidores e formuladores de política monetária pelos próximos 120 a 150 dias — período em que as autoridades monetárias ainda estarão coletando e dimensionando os reais impactos do conflito sobre suas economias. A primeira: qualquer acordo de paz deve ser lido como alívio de risco geopolítico, não como normalização imediata das cadeias de suprimento. A segunda: o risco de que o choque de energia e petroquímica se arraste por vários trimestres é real. A terceira: os bancos centrais devem manter a orientação de juros altos por mais tempo, favorecendo ativos com menor sensibilidade à volatilidade. “O novo normal não é apenas a paz diplomática, mas a adaptação a uma estrutura de custos estruturalmente mais elevada”, conclui Simioni.










