A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual no fim de abril, mesmo diante da piora das projeções de inflação, provocou uma mudança importante na leitura do mercado sobre a condução da política monetária brasileira.
Pela primeira vez desde que o Banco Central passou a trabalhar formalmente com o horizonte de 18 meses à frente como referência principal para suas decisões, os movimentos da Selic e das projeções inflacionárias seguiram direções opostas.
O episódio passou a ser interpretado por economistas e gestores como um sinal de mudança na função de reação da autoridade monetária, aumentando dúvidas sobre os critérios utilizados pelo BC para calibrar os juros em um ambiente ainda marcado por inflação elevada, expectativas desancoradas e incertezas externas.
O principal fator de deterioração recente do cenário foi a escalada do petróleo após o agravamento do conflito no Oriente Médio. Parte do mercado entende que o Banco Central aposta em uma futura normalização dos preços da commodity e tenta preservar o atual ciclo de flexibilização monetária enquanto aguarda maior clareza sobre os impactos da guerra na inflação doméstica.
Essa estratégia, porém, passou a ser questionada por economistas que enxergam maior tolerância do Copom à piora inflacionária.
O economista-chefe da Adam Capital, Juliano Cecílio, afirma que o processo inflacionário brasileiro já mostrava sinais de deterioração antes mesmo do choque provocado pelo petróleo.
Segundo ele, a inflação de serviços vinha acelerando devido ao impulso fiscal e à atividade econômica ainda aquecida ao longo de 2025 e início de 2026.
“Tivemos o maior erro de projeção da série histórica do IPCA em fevereiro, antes da guerra começar, e isso foi basicamente causado pela inflação de serviços”, afirmou Cecílio.
Os dados reforçam essa percepção. A média móvel trimestral anualizada da inflação de serviços subjacentes passou de 4,74% em dezembro para 5,41% em fevereiro e permaneceu acima de 5% em março. Parte do mercado já trabalha com nova aceleração em abril, próxima de 5,7%.
Na avaliação do economista, o choque do petróleo acabou funcionando como uma “cortina de fumaça” que desviou a atenção do principal problema estrutural: uma economia ainda aquecida o suficiente para impedir desaceleração consistente da inflação de serviços.
Cecílio também afirma que o Banco Central passou a demonstrar menor sensibilidade à piora das expectativas inflacionárias após a pandemia, movimento que, segundo ele, também pode ser observado em outros bancos centrais relevantes, como o Federal Reserve, nos Estados Unidos.
O economista cita ainda episódios recentes em que o mercado considera que houve erro na condução monetária, como o ciclo de cortes da Selic iniciado em 2023 e revertido posteriormente por uma alta acumulada de 4,5 pontos percentuais entre setembro de 2024 e junho de 2025.
“O BC parece mais disposto a fazer apostas do que no passado”, afirmou.
O BTG Pactual também destacou preocupação com a comunicação do Banco Central e com a dificuldade crescente de entender quais fatores poderiam interromper o atual ciclo de cortes.
Os economistas Tiago Berriel e Iana Ferrão avaliam que houve mudança relevante na função de reação da autoridade monetária e que o componente qualitativo ganhou mais peso nas decisões do Copom.
Segundo eles, ficou menos claro qual deterioração adicional das projeções, expectativas ou núcleos de inflação seria suficiente para encerrar o ciclo de flexibilização monetária.
O banco alerta que a ausência de uma régua mais objetiva aumenta os riscos de deterioração da ancoragem das expectativas inflacionárias e da própria credibilidade da política monetária.
Desde o início da guerra no Oriente Médio, a projeção mediana do mercado para a inflação de 2028 subiu de 3,50% para 3,64% no Boletim Focus, movimento já mencionado com preocupação pelo próprio Copom.
Parte do mercado, porém, ainda vê espaço para continuidade moderada dos cortes.
O gestor Ian Lima, da Inter Asset, afirma que o Banco Central busca ganhar tempo enquanto observa os efeitos do choque de petróleo sobre a economia brasileira.
Segundo ele, interromper abruptamente o ciclo poderia gerar uma abertura maior na curva de juros e provocar aperto adicional das condições financeiras.
O gestor argumenta ainda que o BC possui margem para conduzir cortes graduais porque elevou a Selic a 15% — maior nível em quase duas décadas — e manteve os juros nesse patamar por nove meses.
Hoje, o juro real brasileiro gira em torno de 10%, bem acima das estimativas de juro neutro do mercado, normalmente entre 6% e 7%.
Já o economista-chefe da Vinland Capital, Aurélio Bicalho, avalia que o espaço para novas reduções da Selic diminuiu de maneira significativa.
Embora reconheça que a política monetária vem desacelerando parte da atividade econômica, ele afirma que o cenário inflacionário segue bastante adverso e deve limitar a continuidade do ciclo.
Na avaliação da gestora, o Copom pode manter cortes graduais até setembro, mas deverá interromper o movimento antes do último trimestre diante da persistência da inflação elevada e das expectativas desancoradas.









