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PIB cresce 1,1%, mas analistas veem BC sem espaço para aliviar juros

Economistas veem atividade forte no curto prazo e defendem cautela do Banco Central diante da inflação

O PIB do Brasil avançou 1,1% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o trimestre anterior, resultado ligeiramente acima do 1% esperado pelo mercado e que marca uma retomada da atividade econômica após a moderação observada no final de 2025. Na base anual, o crescimento foi de 1,8%. O número animou — mas os especialistas ouvidos pelo mercado foram unânimes em temperar o otimismo com alertas sobre o que vem pela frente.

Para Sara Paixão, Analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, os três grandes setores da economia contribuíram positivamente para o resultado. A agropecuária liderou com alta de 2% no trimestre, impulsionada pelas condições climáticas mais favoráveis no início do ano e pela expansão da área plantada, com destaque para a soja, que avançou 4,8% na estimativa anual de produção. Na indústria, o crescimento de 1% foi puxado pela indústria extrativa, que avançou 3,6% no trimestre e 13,1% na base anual, reflexo direto da extração de petróleo e gás, e pela construção civil, com alta de 2,9%. Nos serviços — que representam cerca de 70% da economia —, o crescimento foi mais modesto, de 0,5%, com informação e comunicação registrando o destaque positivo, com avanço de 2,4%. O consumo das famílias cresceu 1% no trimestre, sustentado pelos estímulos fiscais implementados ao final de 2025 e início de 2026: mudança na faixa de isenção do imposto de renda, alterações no limite do Minha Casa Minha Vida e expansão do crédito via novo consignado privado.

Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, também destacou o desempenho da agropecuária e do consumo, mas direcionou sua leitura para os riscos do segundo semestre. “O número mostra uma economia ainda aquecida no curto prazo, sustentada pelo agro, pelo consumo e pelos estímulos do governo. Mas o mercado continua preocupado com o segundo semestre, porque juros altos, inflação pressionada, cenário eleitoral e incertezas externas podem desacelerar a atividade mais à frente”, avaliou.

Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, aprofundou a análise pelo lado da demanda. Além da contribuição positiva dos três grandes setores, ela destacou que o desempenho robusto foi impulsionado pelo maior consumo das famílias diante dos incentivos via isenção do IR e reajuste do salário mínimo. Para a economista, o resultado tem implicação direta sobre a conduta do Banco Central: “O BC deverá revisar novamente suas estimativas para o hiato do produto. A projeção oficial de crescimento de 1,6% para 2026 passa a carregar um claro viés de alta, convergindo para um cenário que ainda não havia sido incorporado pela autoridade monetária em seu balanço de riscos”, afirmou.

Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB, reconheceu as boas notícias, mas foi o mais enfático nos alertas fiscais. “Boas notícias no front da economia real, ainda que em grande parte estimuladas por benesses governamentais, que eventualmente poderão cobrar seu preço nos próximos meses via juros futuros mais altos”, afirmou. Para ele, o aumento dos gastos públicos tende a impactar o risco fiscal e a percepção de solvência do governo, levando os poupadores a exigir retornos mais elevados para financiar a dívida pública. “A conta ficará para uma avaliação posterior”, concluiu o estrategista.

Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, destacou a reversão da formação bruta de capital fixo, que subiu 3,4% após recuar 3,4% no trimestre anterior — movimento que, em sua leitura, reflete um ambiente ainda propício ao investimento no curto prazo. O economista também apontou o retorno das importações, com alta de 4,4%, como reflexo de um mercado doméstico aquecido. No entanto, sua projeção é de desaceleração à frente: “Esperamos que a atividade desacelere ao longo dos próximos trimestres, refletindo o grau de contração monetária em vigor”, afirmou.

José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, convergiu para a mesma leitura. Ele chamou atenção para o fato de que a taxa de investimento ficou em 16,5% e a taxa de poupança em 15,5% no trimestre — desequilíbrio que, somado à aceleração do consumo, reforça a pressão sobre a demanda interna. “Os dados mostram uma economia acelerando, provavelmente devido aos programas aprovados pelo governo neste início de ano, o que poderá gerar preocupação para o Banco Central”, avaliou. Sua projeção é de crescimento de 0,5% por trimestre nos próximos períodos e de 2,0% para o ano cheio de 2026.

Do ponto de vista da política monetária, o consenso entre os especialistas é claro: o resultado do PIB, combinado com um mercado de trabalho ainda aquecido, expectativas de inflação em alta e estímulos fiscais em vigor, estreita o espaço para uma flexibilização monetária mais agressiva. Sara Paixão projeta corte de 25 pontos-base na reunião de junho do Copom, com comunicado mantendo tom dependente de dados. A economia acelerou — mas o Banco Central, na visão unânime dos analistas, não tem espaço para relaxar.

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