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IPCA acima da meta divide economistas após resultado de maio

IPCA de maio acima da meta divide especialistas: alívio nos núcleos anima, mas serviços e alimentação preocupam

O IPCA de maio registrou alta de 0,58%, resultado acima da expectativa do mercado e que elevou a inflação acumulada em 12 meses para 4,72% — ultrapassando o teto da meta perseguida pelo Banco Central, fixado em 4,50%. O dado provocou reações que, embora reconheçam algum alívio na leitura qualitativa, convergem para um diagnóstico comum: a inflação segue pressionada e o espaço para flexibilização monetária se estreita.

Para Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, o grande vilão do mês foi a alimentação, que avançou 1,33%, pressionada por problemas de oferta e pelo aumento dos custos logísticos. Do lado positivo, a gasolina recuou 1,46% e a média dos núcleos desacelerou de 0,50% para 0,45%, sinalizando perda gradual de fôlego nas pressões mais persistentes. “O mercado recebeu os dados com relativa tranquilidade porque, apesar do índice cheio ter surpreendido para cima, os componentes mais observados pelo Banco Central vieram melhores”, avalia. Spyer também aponta que a queda do petróleo no mercado internacional e a perspectiva de um acordo entre Estados Unidos e Irã ajudam a reduzir riscos inflacionários à frente, o que levou o mercado a recolocar na mesa a possibilidade de início de um ciclo de cortes nos próximos meses — desde que o cenário fiscal não piore e as expectativas continuem cedendo.

Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, endossa a leitura de pressão persistente, com atenção especial ao componente de serviços, que segue rodando próximo de 6,0% na comparação anual. Ele detalha a abertura do índice: além de alimentação e bebidas (+1,33%), habitação avançou 1,22%, refletindo a elevação da energia elétrica residencial, enquanto saúde e cuidados pessoais subiram 0,90%. Os transportes registraram deflação de 0,46%, com contribuição negativa da gasolina. O índice de difusão ficou em 65,0%, sugerindo apenas melhora limitada na dispersão inflacionária. “Apesar da desaceleração em alguns itens, a dinâmica dos componentes mais sensíveis ao ciclo econômico ainda sugere persistência de pressões inflacionárias”, afirma o economista, que reforça a necessidade de cautela diante de expectativas ainda pouco ancoradas.

Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, chama atenção para um movimento específico que pode passar despercebido na leitura agregada: a reaceleração nos bens industriais, com destaque para itens de higiene pessoal, que sugere um provável efeito indireto das cotações do petróleo sobre a precificação final desses produtos. Em contrapartida, ela observou dinâmica menos pressionada nos serviços subjacentes. “O resultado não motiva revisões em nossa projeção, mas segue evidenciando uma dinâmica qualitativa desfavorável, que implicará um panorama complexo para o Banco Central diante de um cenário com inflação acima da meta e expectativas desancoradas”, avalia.

Gabriel Pestana, economista-sênior da Genial Investimentos, foi o mais detalhado na decomposição do dado. Sua projeção era de 0,48% — abaixo do realizado —, mas ele ressalva que a surpresa altista se concentrou em fatores de oferta e itens voláteis, como tubérculos, arroz e leite, enquanto os componentes ligados à demanda e ao mercado de trabalho, historicamente mais persistentes, vieram abaixo do esperado. O destaque positivo ficou com os serviços, que avançaram 0,40% no mês, abaixo de sua projeção de 0,48%, com arrefecimento mais forte em itens subjacentes e intensivos em trabalho — leitura que, segundo o economista, reforça um cenário mais benigno para a inflação de demanda no curto prazo. Ainda assim, sua conclusão é direta: “O número de maio é elevado e contrata mais um trimestre de inflação elevada, reforçando a necessidade de uma política monetária contracionista.” A expectativa da Genial é de corte de 25 pontos-base em junho seguido de interrupção do ciclo, com a Selic encerrando 2026 em 14,25%.

Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart Xp destaca que o indicador de inflação reforça a necessidade de cautela a ser adotada pelo Banco Central nas próximas decisões de juros. Para a próxima reunião, o mercado continua dividido entre um corte de 25 bps ou para a manutenção nos juros. Enquanto parte dos analistas não enxerga mais corte nos juros ao longo de 2026. “Importante ressaltar que, a finalização do conflito entre Estados Unidos e Irã pode trazer alívio ao cenário, apesar de não esperarmos que o preço do petróleo retorne ao preço pré-conflito no curtíssimo prazo.”

O consenso entre os especialistas aponta para uma mesma direção: o IPCA de maio oferece algum conforto qualitativo, mas não muda o quadro central de uma inflação que segue acima da meta, com serviços resilientes, expectativas desancoradas e pouco espaço para afrouxamento monetário adicional. Para a reunião de junho do Copom, a expectativa predominante é de manutenção ou corte de 25 pontos-base — com sinalização de que o ciclo de flexibilização está próximo do fim.

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