A Hapvida (HAPV3) perdeu 91 mil beneficiários entre janeiro e maio de 2026 e passou a caminhar na direção oposta à do mercado brasileiro de planos de saúde, que voltou a crescer. O desempenho levou três dos principais bancos que acompanham a companhia a postergar as expectativas de recuperação da maior operadora de saúde do país, diante da redução da base de clientes, da pressão sobre os custos assistenciais e das dúvidas sobre a capacidade de execução da nova gestão.
Somente em maio, o setor de saúde suplementar registrou 136 mil adesões líquidas, enquanto a Hapvida perdeu mais 9 mil vínculos. Com isso, a base da companhia encolheu 1,5% em 12 meses, para aproximadamente 8,5 milhões de beneficiários, e sua participação de mercado recuou cerca de 0,5 ponto percentual, para 16,1%, segundo levantamento do JPMorgan elaborado com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Apesar da retração, a empresa permanece na liderança isolada do setor, com mais que o dobro da participação da segunda colocada.
A perda registrada em maio ficou concentrada principalmente na NotreDame Intermédica, operação da Hapvida nas regiões Sul e Sudeste, que eliminou 8,6 mil beneficiários. A base do Nordeste, por sua vez, permaneceu praticamente estável. Segundo cálculos do Bank of America, a companhia acumulou uma redução de 48 mil vidas apenas nos dois primeiros meses do segundo trimestre.
O movimento contrasta com o avanço do mercado. A saúde suplementar alcançou 53,1 milhões de beneficiários em maio, crescimento de 1,5% em 12 meses, enquanto os planos odontológicos avançaram 4,4%, para 36,2 milhões de usuários. Depois de perder 9 mil vidas no primeiro trimestre, o setor adicionou 146 mil beneficiários líquidos em abril e maio, com as regiões Sudeste e Nordeste liderando as novas adesões.
Entre as grandes operadoras, a Amil voltou a apresentar o maior crescimento, com 42 mil novos beneficiários em maio, após adicionar 27 mil em abril e 12 mil em março. Em 12 meses, a empresa ganhou cerca de 270 mil vidas. A Bradsaúde (SAUD3), controlada pelo Bradesco, acrescentou 33 mil clientes e ampliou sua base em 10,2% na comparação anual, o ritmo mais forte entre as maiores companhias do setor. Sua participação de mercado subiu para 7,8%.
A Porto Saúde, pertencente ao Grupo Porto (PSSA3), ganhou 15 mil beneficiários em maio e acumulou expansão anual de 20,8%. A SulAmérica, controlada pela Rede D’Or (RDOR3), retomou o crescimento ao adicionar 4 mil vidas, depois de ter perdido 36 mil em abril, e apresentou alta de 5,6% em 12 meses. O sistema Unimed registrou entrada líquida de 20 mil clientes, encerrando uma sequência de sete meses de perdas, impulsionado principalmente pela Unimed Seguros e pela Unimed Porto Alegre.
Na outra ponta, a Unimed Nacional perdeu 19 mil beneficiários, enquanto a Assim Saúde eliminou outros 4 mil vínculos e acumulou retração anual de 14,7%. Mesmo com o crescimento de algumas operadoras, mais da metade do mercado permanece pulverizada entre centenas de empresas menores, cooperativas regionais, autogestões e redes verticalizadas.
O Bank of America avalia que 2026 deve ser marcado por uma disputa mais intensa por participação de mercado e por uma possível guerra de preços entre as operadoras. Nesse ambiente, SulAmérica e Bradsaúde aparecem, na avaliação do banco, em posição mais favorável para crescer sem comprometer de maneira significativa os resultados. O JPMorgan ressalta, porém, que os números da ANS podem apresentar volatilidade e divergir dos dados posteriormente divulgados pelas próprias companhias.
A Hapvida divulgará o balanço do segundo trimestre em 12 de agosto, e a expectativa dos analistas é de mais um resultado pressionado. O Citi projeta crescimento anual de 5% na receita, perda de 38 mil beneficiários no trimestre e aumento de 2,7 pontos percentuais na sinistralidade, indicador que mede a parcela das receitas consumida por despesas médicas e hospitalares.
O banco estima ainda que despesas judiciais e multas aplicadas pela ANS poderão alcançar R$ 350 milhões no período. O Ebitda normalizado é projetado em R$ 614 milhões, enquanto o prejuízo líquido poderá chegar a R$ 250 milhões. Em contrapartida, um fluxo de caixa livre para o acionista positivo, calculado em R$ 133 milhões, poderia reduzir parte das preocupações relacionadas ao balanço patrimonial e à capacidade financeira da operadora.
O Citi manteve recomendação neutra para HAPV3, com preço-alvo de R$ 11 e classificação de risco elevado. O banco reconhece avanços na reformulação da administração e na racionalização dos ativos, mas avalia que a falta de metas quantitativas mais claras e os problemas recentes de execução continuam limitando a confiança dos investidores. Para os analistas, a ação não oferece desconto suficiente para compensar a baixa visibilidade dos resultados no curto prazo.
O JPMorgan também mantém recomendação neutra para a Hapvida, com preço-alvo de R$ 13,50, e aponta a Rede D’Or como sua preferência no setor, com classificação overweight. Mesmo após anos de ajustes, integração de operações e mudanças de gestão, a recuperação da Hapvida continua sendo tratada pelo mercado como uma tese de longo prazo, dependente da estabilização da base de beneficiários, da melhora da sinistralidade e de uma execução mais consistente.
Apesar das dificuldades, a companhia ainda lidera o mercado com 16,1% dos beneficiários de planos de saúde do país. Na sequência aparecem Bradsaúde, com 7,8%, Amil, com 6,7%, SulAmérica, com 5,9%, Unimed Nacional, com 3,3%, e Unimed BH, com 3%. As dez maiores operadoras concentram 48,3% dos clientes, enquanto os outros 51,7% permanecem distribuídos entre empresas de menor porte.









