Uma combinação de custos menores, carga tributária mais baixa, valuation descontado e sinais de recuperação do mercado de capitais levou o Itaú BBA a adotar uma visão mais positiva para a XP Inc. (XPBR31). O banco elevou a recomendação de market perform para outperform e definiu preço-alvo de US$ 22 para o fim de 2027. O alvo anterior era de US$ 19 para dezembro de 2026.
A mudança não depende de uma forte aceleração das receitas. A estimativa de receita bruta para 2026 permaneceu praticamente inalterada, em R$ 20,8 bilhões, enquanto a projeção para 2027 foi reduzida em 2%, para R$ 23,5 bilhões. O principal avanço está na expectativa de maior eficiência operacional e, consequentemente, de crescimento dos lucros mesmo antes de uma recuperação mais robusta do mercado.
O BBA elevou em 8% sua projeção de lucro líquido para 2026, para R$ 5,6 bilhões, o que representaria crescimento anual de 7,7%. Para 2027, a expectativa é de avanço adicional de 7,4%. Quando considerado o efeito das recompras, o lucro por ação deve crescer 11% neste ano.
Parte relevante dessa revisão veio das despesas. As comissões pagas aos assessores financeiros independentes vêm ficando abaixo das premissas utilizadas anteriormente, enquanto o banco passou a trabalhar com uma relação mais estável entre despesas de remuneração e receitas, em vez de assumir que esse custo aumentaria conforme a rede de assessoria crescesse.
As estimativas de custos foram reduzidas em 2,5%, e as de despesas gerais e administrativas, em 1,4%. O resultado foi uma elevação de 5% na previsão de lucro antes dos impostos. Uma carga tributária menor completa a revisão que levou à projeção de R$ 5,6 bilhões de lucro líquido.
O segundo argumento para o upgrade está no comportamento esperado da economia brasileira. O BBA observa que investidores têm procurado companhias menos vulneráveis a uma eventual desaceleração do PIB, mas que também possam capturar os benefícios de uma mudança favorável na trajetória dos juros.
Nesse contexto, empresas ligadas ao mercado de capitais são vistas pelo banco como uma exposição mais direta a uma eventual redução da inclinação da curva de juros do que os bancos tradicionais. Uma queda das taxas futuras pode provocar expansão dos múltiplos dessas companhias. Os bancos também poderiam se beneficiar, mas estariam mais expostos à deterioração do crédito e de outras linhas de resultado caso juros menores fossem acompanhados por atividade econômica mais fraca.
Para o Itaú BBA, a XP reúne características favoráveis para esse cenário e passou a apresentar maior previsibilidade para os resultados de curto prazo. Além disso, é negociada aos menores múltiplos entre as três empresas de mercado de capitais acompanhadas pelo banco.
A companhia está avaliada em aproximadamente 8,3 vezes o lucro estimado para 2026 e 7,7 vezes o projetado para 2027. Desde 2023, a média desse múltiplo ficou em 10,6 vezes. O BBA também projeta retorno sobre o patrimônio líquido de 23,1% neste ano.
A possibilidade de retorno aos acionistas reforça a tese. O banco estima que dividendos e recompras possam representar o equivalente a 11,4% do valor de mercado da XP em 2026. Somado ao crescimento previsto de 11% do lucro por ação, esse movimento levaria o retorno total potencial para perto de 20%, mesmo sem considerar uma eventual valorização provocada pela expansão dos múltiplos.
Para 2027, dividendos e recompras poderiam corresponder a outros 8,4% do valor de mercado. Na avaliação dos analistas, essa capacidade de devolver capital aos acionistas funciona como um componente importante da tese enquanto uma recuperação mais ampla das atividades do mercado de capitais ainda não se consolida.
Alguns indicadores, porém, já mostram melhora. As emissões no mercado primário atingiram R$ 78,9 bilhões em junho e R$ 67,9 bilhões em julho, depois de um período mais fraco em abril e maio. Somente as debêntures movimentaram R$ 33,1 bilhões em julho.
A XP também informou, na divulgação dos resultados do segundo trimestre, que a atividade do mercado primário no terceiro trimestre vinha superando os níveis do trimestre anterior, embora permanecesse abaixo do pico observado em 2025. Diante dessa recuperação, o BBA elevou para R$ 3,2 bilhões sua previsão de receitas de Corporate & Issuer Services em 2026, crescimento de 16% em relação ao ano anterior.
O fluxo para fundos de renda fixa investment grade apresenta outro sinal favorável. Depois de quatro meses consecutivos de retiradas líquidas, esses produtos receberam R$ 5 bilhões em julho e quase R$ 14 bilhões em agosto até a data considerada pelo banco. Os spreads, segundo o relatório, permanecem controlados desde junho.
Na Bolsa, a recuperação ainda é menos uniforme. O volume financeiro médio diário da B3 caiu para R$ 22,6 bilhões em julho, e o giro relativo dos investidores de varejo ficou em 78% da média dos 12 meses anteriores. Em agosto, porém, o volume médio negociado já se aproximava de R$ 30 bilhões.
Esse movimento é especialmente relevante para a XP porque, nas estimativas do BBA, a plataforma captura entre 40% e 50% dos volumes negociados pelo varejo. O banco calcula que a melhora das negociações de ações e da atividade institucional possa adicionar cerca de R$ 200 milhões às receitas no segundo semestre em relação aos seis primeiros meses do ano.
O período eleitoral também aparece como possível catalisador. Nos ciclos de 2014, 2018 e 2022, o BBA identificou aceleração significativa da atividade dos investidores de varejo entre setembro e outubro. O banco ressalta, contudo, que não há garantia de repetição desse comportamento em 2026.
A recomendação mais positiva, portanto, não parte da premissa de uma recuperação imediata e generalizada do mercado. O Itaú BBA considera que custos menores, tributação mais favorável e distribuição elevada de capital já sustentam uma perspectiva melhor para os resultados, enquanto eventual aumento da atividade de varejo e redução das taxas futuras funcionariam como fontes adicionais de valorização. Para os analistas, parte relevante dos riscos da XP já está incorporada ao preço das ações.









