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XP muda taxas de multimercados e pressiona modelo de ‘2 com 20’

Mudança da XP Asset questiona modelo tradicional de cobrança dos multimercados após anos de desempenho fraco e retirada de recursos pelos investidores

A XP Asset decidiu mexer em uma das estruturas de cobrança mais tradicionais da indústria de fundos multimercados. Nos produtos macro da gestora, a taxa de administração caiu de 2% para 1% ao ano, enquanto a taxa de performance sobre o que superar o CDI subiu de 20% para 30%. A mudança reacendeu a discussão sobre quanto os investidores devem pagar por estratégias que atravessam um período prolongado de desempenho abaixo das expectativas.

O debate ocorre em um momento especialmente difícil para os multimercados. A categoria acumula quatro anos consecutivos de resgates e caminha para o quinto. Somente entre janeiro e agosto deste ano, as saídas líquidas chegaram a R$ 15,7 bilhões.

Parte dessa perda de espaço está relacionada ao desempenho. Nos últimos anos, diversos fundos entregaram retornos inferiores ou próximos ao CDI, apesar de assumirem riscos maiores. Ao mesmo tempo, os juros elevados aumentaram a concorrência da renda fixa, inclusive de produtos isentos de Imposto de Renda.

Com a mudança, a XP reduz a parcela da receita que recebe independentemente do resultado do fundo e aumenta aquela condicionada à superação do CDI. Segundo Bruno Marques, chefe de multimercados da XP Asset, a intenção é aproximar a remuneração da gestora do retorno obtido pelo cotista.

A gestora também alterou a política de risco dos produtos. Antes, os fundos buscavam volatilidade média de aproximadamente 5%. Agora, esse patamar passa a funcionar como limite, em uma tentativa de reduzir oscilações excessivas e adaptar as estratégias a mudanças mais abruptas do mercado.

O movimento coloca em discussão o tradicional modelo conhecido como “2 com 20”. Nos Estados Unidos, onde estruturas semelhantes são utilizadas pelos hedge funds, outras combinações de taxas ganharam espaço ao longo dos anos. Levantamento do BNP Paribas com mais de 200 investidores institucionais mostrou que, no ano passado, a taxa média de administração desses produtos estava em 1,52%, enquanto a de performance alcançava 18,13%.

Para Samuel Ponsoni, sócio da Outliers Advisory, não é possível avaliar o custo de um fundo apenas pela porcentagem cobrada. Um produto capaz de superar consistentemente o CDI por margem relevante pode justificar uma estrutura mais cara, enquanto taxas semelhantes pesam mais quando o retorno adicional entregue ao investidor é pequeno.

Na avaliação de Ponsoni, o histórico recente dos multimercados abre espaço para que outras gestoras reduzam a cobrança fixa e vinculem uma parcela maior da remuneração ao desempenho. Isso não significa, porém, que a mesma estrutura seja adequada para todos os fundos, já que estratégias, volatilidade e potencial de retorno são diferentes.

Luciana Seabra, sócia e chefe da Indê Investimentos, vê outro risco no aumento da taxa de performance. Segundo ela, uma remuneração mais dependente do resultado pode incentivar gestores a assumir riscos adicionais em momentos nos quais essa postura não seria necessariamente a mais adequada para o cotista. Para a analista, a revisão deveria considerar reduções tanto na taxa de administração quanto na de performance.

A mudança da XP ocorre, portanto, em meio a uma discussão mais ampla sobre o modelo econômico dos multimercados. Depois de anos de resgates e forte concorrência da renda fixa, o desafio das gestoras passa não apenas por recuperar desempenho, mas também por demonstrar que os custos cobrados são compatíveis com o retorno e o risco efetivamente entregues aos investidores.

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