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Economistas veem Selic elevada por mais tempo após Copom

A perspectiva de manutenção dos juros elevados por um período prolongado ganhou força entre economistas e instituições financeiras após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 13,75% ao ano. Embora a interrupção do ciclo de cortes tenha sido amplamente antecipada, as avaliações sobre o comunicado do Banco Central revelam diferenças quanto à intensidade dos riscos inflacionários e à possibilidade de novos ajustes na taxa básica.

O principal ponto de convergência entre os especialistas é que a desaceleração da economia brasileira, embora mais evidente, ainda não oferece condições suficientes para a retomada da flexibilização monetária. A aceleração da inflação, a deterioração das expectativas e o agravamento das condições externas passaram a representar obstáculos adicionais para a redução dos juros.

Para Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, o comunicado apresentou uma linguagem ligeiramente favorável à manutenção ou futura redução dos juros, ao reconhecer uma desaceleração mais acentuada da atividade econômica e sinais de desaquecimento do mercado de trabalho. Na avaliação da economista, a retirada de uma expressão que qualificava o cenário alternativo para o hiato do produto como mais positivo sugere uma percepção menos pressionada da demanda doméstica.

Apesar dessa sinalização, Natalie observa que o Banco Central demonstrou preocupação com a aceleração dos núcleos de inflação e com a deterioração do ambiente internacional. Sua interpretação é que a autoridade monetária pretende preservar os juros elevados por mais tempo, sem indicar disposição imediata para retomar os cortes ou iniciar um novo ciclo de altas. Para a economista, o nível de deterioração necessário para justificar um aumento da Selic parece relativamente elevado.

Uma leitura mais cautelosa foi apresentada por Pablo Spyer, conselheiro da Ancord e economista. Ele considera acertada a interrupção dos cortes diante da piora das perspectivas inflacionárias e avalia que o comunicado reduziu significativamente o espaço para novas quedas da taxa básica.

Spyer destaca a elevação das projeções do Banco Central para o IPCA, especialmente a estimativa de 2027, que passou de 3,9% para 4,7%, e a projeção de 3,5% para o segundo trimestre de 2028. Segundo ele, a combinação entre inflação pressionada e perda de dinamismo da atividade econômica coloca o Copom diante de um cenário complexo, no qual reduzir os juros poderia comprometer o processo de convergência dos preços à meta.

O economista também chama atenção para a retirada da referência à calibração do ciclo de juros, presente no comunicado anterior. Em sua interpretação, a mudança reforça a possibilidade de encerramento temporário da flexibilização e preserva a liberdade do Banco Central para reagir a uma eventual deterioração adicional do cenário. Spyer considera a manutenção da Selic em dezembro a hipótese mais provável, sem descartar completamente uma futura elevação.

A exclusão da referência à magnitude total do ciclo de calibração também foi destacada por Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Banco Pine. Para ele, a alteração sugere que a pausa poderá ultrapassar a última reunião do ano, especialmente diante da revisão das expectativas de inflação e da incorporação de novos riscos ao cenário prospectivo.

Oliveira ressalta que o Banco Central passou a considerar de maneira mais explícita os possíveis efeitos secundários da alta do petróleo e dos eventos climáticos sobre os preços, a produtividade agrícola e os custos de energia. Embora reconheça o enfraquecimento da atividade e do mercado de trabalho, o economista entende que a retomada dos cortes em 2027 dependerá de uma melhora consistente das expectativas inflacionárias, da evolução da política fiscal e da confirmação da desaceleração econômica.

Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, compartilha a expectativa de manutenção da Selic em 13,75% na reunião de dezembro. Sua avaliação enfatiza a combinação de fatores externos e domésticos que ampliaram as incertezas para a política monetária, incluindo tensões geopolíticas, volatilidade dos mercados, preços de commodities pressionados e condições financeiras internacionais restritivas.

Para o economista, a persistência das expectativas de inflação acima da meta aumenta o custo de convergência dos preços e exige cautela adicional do Banco Central. Ele considera que a desaceleração econômica já se manifesta de maneira mais intensa nos setores sensíveis aos juros, mas ainda não é suficiente para neutralizar os riscos inflacionários. Nesse contexto, a manutenção de condições monetárias restritivas permanece necessária até que haja sinais mais consistentes de melhora.

Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, também identifica um endurecimento na avaliação do Banco Central sobre a trajetória da inflação. Segundo ela, a deterioração das projeções já vinha sendo incorporada pelo mercado financeiro por meio das revisões sucessivas do Boletim Focus, que passaram a indicar expectativas cada vez mais distantes da meta oficial.

Na avaliação de Bruna, o comunicado apresentou uma leitura substancialmente mais desfavorável do cenário econômico em comparação à reunião anterior, realizada 45 dias antes. A economista destaca que o agravamento dos conflitos no Oriente Médio e a pressão sobre os preços do petróleo ampliaram as dificuldades para a condução da política monetária, inclusive nas economias avançadas. Internamente, o enfraquecimento dos setores cíclicos e os primeiros sinais de moderação do mercado de trabalho não foram suficientes para compensar a aceleração dos indicadores de inflação.

A especialista considera que o Banco Central adotou uma comunicação mais restritiva, sem estabelecer uma orientação antecipada para as próximas decisões. Para ela, a pausa deverá continuar enquanto não houver melhora consistente das expectativas inflacionárias. Caso esse movimento não ocorra, Bruna admite a possibilidade de uma nova elevação da Selic e considera que o debate sobre um eventual ciclo de aperto monetário poderá avançar até 2027. A economista também associa a piora das perspectivas à elevação das taxas negociadas no mercado de juros futuros.

Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, também avalia que a manutenção da Selic reflete a deterioração das condições econômicas observada após o segundo turno das eleições. Segundo ele, a combinação de depreciação cambial, valorização do petróleo e elevação das expectativas de inflação reduziu significativamente o espaço para uma última redução dos juros, tornando a pausa o cenário predominante entre os participantes do mercado.

Na interpretação de Kayo, o comunicado preservou elementos centrais da reunião anterior, incluindo a avaliação de riscos inflacionários predominantemente altistas e as referências à política fiscal. As mudanças mais importantes ocorreram no diagnóstico econômico e na retirada do trecho sobre a magnitude total do ciclo de calibração, que pode indicar o encerramento dos cortes ao menos temporariamente. Por outro lado, o economista observa que o reconhecimento de uma desaceleração mais intensa da atividade e a caracterização da Selic como substancialmente contracionista sugerem que o Banco Central considera o nível atual dos juros suficientemente restritivo, sem necessidade imediata de elevação.

O economista da Nomad chama atenção para o fato de que a projeção de inflação de 3,5% no horizonte relevante considera uma taxa de câmbio de R$ 5,20, inferior às cotações observadas após as eleições. Essa diferença, em sua avaliação, pode significar que as estimativas do Banco Central ainda não incorporam integralmente as pressões cambiais recentes.

Para 2027, Kayo identifica riscos adicionais associados aos possíveis efeitos do El Niño sobre os alimentos, às mudanças na jornada de trabalho, à entrada em vigor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e a eventuais reajustes dos combustíveis. A condução da política fiscal pelo novo governo também será determinante para a trajetória dos preços e das expectativas. Apesar dessas incertezas, a Nomad projeta a manutenção da Selic em 13,75% na reunião de dezembro.

Na avaliação do especialista, a sinalização de juros elevados por mais tempo pode contribuir para reduzir parte dos prêmios exigidos no mercado de juros futuros e oferecer algum suporte ao real. Ele ressalta, contudo, que o comportamento do dólar deverá continuar especialmente sensível às decisões fiscais. Para a atividade econômica, a manutenção prolongada de uma política monetária restritiva tende a desacelerar o crédito e o consumo, movimento que poderá abrir espaço para cortes posteriormente, desde que as expectativas de inflação se estabilizem.

Entre as avaliações apresentadas, José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, adota uma perspectiva mais preocupada com a possibilidade de elevação dos juros. Ele considera que o comunicado deu atenção insuficiente à recente deterioração dos preços dos ativos brasileiros, marcada, segundo seus cálculos, por uma desvalorização cambial próxima de 10%, queda expressiva das ações e deslocamento da curva de juros.

Na avaliação de Camargo, esses movimentos poderão pressionar a inflação nos próximos meses e exigir uma resposta mais dura da autoridade monetária. O economista admite, inclusive, a possibilidade de aumento da Selic em uma reunião subsequente, caso a deterioração das condições financeiras persista.

Camargo também atribui importância à decisão unânime do Copom de interromper os cortes, interpretando-a como uma demonstração de autonomia da autoridade monetária diante de pressões políticas por juros menores. Para ele, a disposição de preservar o controle inflacionário, mesmo em um ambiente de cobranças por flexibilização, representa um elemento relevante para a credibilidade da política monetária.

Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, avalia que a decisão representa uma mudança importante nas condições que anteriormente sustentavam a continuidade dos cortes. Embora seu cenário contemplasse uma redução adicional de 0,25 ponto percentual, a manutenção dos juros já era considerada uma alternativa de probabilidade elevada.

Segundo Ariane, a deterioração das projeções de inflação tornou a flexibilização mais difícil de justificar. A economista destaca que a estimativa do Copom para o IPCA de 2026 avançou de 5,2% para 5,6%, enquanto a projeção para 2027 chegou a 4,7%. A elevação das estimativas para preços livres e administrados também sugere riscos de disseminação dos choques recentes para outros componentes da inflação.

A economista observa que o enfraquecimento da demanda doméstica continua sendo um fator favorável à desinflação, mas perdeu capacidade de compensar a piora das expectativas, as pressões cambiais e os choques de oferta. Em sua avaliação, o Banco Central deverá adotar uma postura de observação nas próximas reuniões, sem antecipar movimentos da taxa básica.

Ariane também aponta a necessidade de revisar as projeções da instituição para 2027. O cenário anterior previa Selic de 13,50% até o encerramento do primeiro semestre, seguida de cortes que levariam a taxa a 11,50% ao final do ano. As estimativas preliminares passaram a sugerir juros de 13,75% no encerramento de 2026 e de 12,50% ao término de 2027, sujeitos à evolução da inflação e dos fatores de risco.

As avaliações dos oito especialistas mostram uma convergência em torno da perspectiva de juros restritivos por mais tempo, mas não representam consenso sobre a direção do próximo movimento do Banco Central. Enquanto Natalie Victal e Vitor Kayo identificam sinais de que a autoridade monetária não pretende elevar imediatamente a taxa básica, José Márcio Camargo e Bruna Centeno atribuem maior relevância à possibilidade de aperto adicional, embora com diferentes graus de ênfase. Os demais especialistas concentram suas projeções na manutenção da Selic e condicionam a retomada dos cortes à melhora do cenário inflacionário.

Para as próximas decisões, o comportamento do câmbio, dos preços do petróleo, das expectativas de inflação e da política fiscal aparece como elemento determinante nas análises. A intensidade da desaceleração econômica também será acompanhada, especialmente por seus efeitos sobre o mercado de trabalho, a demanda e os preços de serviços. A leitura predominante entre os economistas é que o Banco Central deverá preservar a política monetária restritiva enquanto persistirem dúvidas sobre a convergência da inflação à meta.

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