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Casas Bahia e Marabraz acendem alerta sobre risco de crédito

Com quase 95% dos R$ 17,3 bilhões sem garantia, caso Casas Bahia expõe riscos de recuperação de capital para bancos, fundos e demais credores

As recuperações judiciais de Casas Bahia e Marabraz colocam em evidência um risco relevante para bancos, fundos de crédito e investidores institucionais: porte, faturamento e reconhecimento de marca não garantem a recuperação do dinheiro emprestado quando uma empresa entra em crise. Os dois casos reforçam a importância da geração de caixa, da qualidade das garantias e da governança na análise de crédito.

O caso da Casas Bahia dimensiona esse risco. Dos R$ 17,3 bilhões informados no processo de recuperação judicial, quase 95% correspondem a créditos sem garantia. Para esses credores, a discussão passa a envolver não apenas a capacidade de sobrevivência da varejista, mas quanto será efetivamente recuperado, em qual prazo e qual será o valor econômico desse pagamento depois de eventuais descontos e alongamentos.

Segundo Marco Túlio Dias, sócio do Abi-Ackel Advogados e especialista em Recuperação de Ativos e Insolvência, grandes empresas também podem representar créditos frágeis quando a exposição não está adequadamente protegida. Para ele, os casos recolocam garantias, geração de caixa e governança entre os principais critérios para decisões de bancos e fundos.

A posição dos credores sem garantia merece atenção porque a recuperação judicial pode estabelecer deságios e prazos prolongados. A legislação não determina um limite geral para essas condições aplicável aos credores quirografários. Por isso, o valor nominal da dívida não representa necessariamente o montante que será recuperado. O resultado dependerá do plano aprovado, das negociações entre as classes de credores e, principalmente, da capacidade futura da companhia de gerar recursos para cumprir os compromissos assumidos.

Esse cenário amplia a importância da análise realizada antes da concessão do crédito. Indicadores como dívida líquida, alavancagem, fluxo de caixa e cobertura de juros continuam relevantes, mas precisam ser acompanhados da avaliação sobre quais ativos protegem a operação, quem controla esses bens e qual seria seu valor e sua possibilidade de execução em um cenário de estresse.

“A recuperação judicial é o momento em que a qualidade do underwriting é colocada à prova”, afirma Dias. Segundo ele, avaliar apenas a remuneração oferecida pela operação pode levar a uma precificação inadequada do risco caso não exista capacidade suficiente de recuperação do capital.

Na Casas Bahia, há ainda um elemento adicional: a recuperação judicial ocorre depois de uma recuperação extrajudicial. Para os credores, uma reestruturação sucessiva exige avaliar se o primeiro acordo produziu redução efetiva do endividamento e recuperação da geração de caixa ou apenas adiou parte das dificuldades financeiras.

Esse histórico pode afetar futuras condições de financiamento. Companhias submetidas a sucessivas reestruturações podem enfrentar juros maiores, exigências adicionais de garantias, cláusulas financeiras mais restritivas e mecanismos de acompanhamento mais rigorosos por parte dos credores.

A recuperação da Marabraz acrescenta outro componente à análise. Segundo informações apresentadas no processo, uma disputa familiar teria comprometido o acesso a imóveis anteriormente utilizados para obtenção de crédito. A situação evidencia que a existência de ativos não é suficiente para assegurar a proteção do credor quando há estruturas societárias complexas ou incertezas sobre seu controle e disponibilidade.

Nesse contexto, governança passa a ter efeito direto sobre o risco financeiro. Estrutura societária, controle dos ativos, relações entre empresas do mesmo grupo e mecanismos de fiscalização podem determinar a efetividade das garantias justamente quando a companhia enfrenta dificuldades.

Os casos de Casas Bahia e Marabraz reforçam, portanto, uma questão central para o mercado de crédito: a análise não deve terminar na capacidade de uma empresa pagar enquanto o negócio funciona normalmente. Bancos e fundos também precisam avaliar antecipadamente sua posição em um eventual cenário de estresse e quanto do capital concedido poderá efetivamente ser recuperado caso a situação financeira da companhia se deteriore.

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