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Eleições ampliam risco cambial e pressionam decisões de empresas

Início da campanha eleitoral amplia volatilidade do dólar em 2026; especialistas avaliam efeitos do risco fiscal, juros dos EUA e fluxo de capitais

A entrada da campanha eleitoral em sua fase oficial aumenta a influência do cenário político sobre o mercado financeiro brasileiro e coloca o câmbio entre os ativos mais sensíveis às pesquisas e às propostas econômicas dos candidatos. Para especialistas, porém, o comportamento do dólar nos próximos meses não dependerá apenas da disputa eleitoral, mas da combinação entre perspectivas fiscais, juros nos Estados Unidos e fluxo internacional de capitais.

O ambiente ganha relevância para empresas com receitas, despesas ou contratos vinculados à moeda americana. Com grandes instituições financeiras adotando maior cautela diante das incertezas fiscais e o dólar novamente em níveis mais elevados, oscilações mais intensas podem afetar custos de importação, formação de preços, margens e planejamento de caixa.

Raissa Florence, economista e diretora da Oz Câmbio, avalia que a eleição tende a ganhar peso na formação do câmbio à medida que investidores procuram antecipar como será conduzida a política econômica a partir de 2027. Pesquisas eleitorais podem provocar movimentos pontuais, mas a reação mais consistente tende a ocorrer quando os resultados alteram as expectativas para as contas públicas, juros e confiança na economia brasileira.

“A eleição passa a ganhar relevância principalmente pela expectativa sobre a condução econômica a partir de 2027. Pesquisas podem gerar movimentos de curto prazo, mas o câmbio tende a responder com mais força à percepção sobre política fiscal, trajetória dos juros e confiança dos investidores”, afirma Raissa.

Isso significa que uma pesquisa eleitoral, isoladamente, não determina uma tendência para o real. Uma deterioração da percepção fiscal pode aumentar os prêmios de risco exigidos pelos investidores e pressionar simultaneamente juros e câmbio. Na direção contrária, condições externas mais favoráveis e entrada de recursos em mercados emergentes podem amortecer parte da volatilidade doméstica.

O comportamento do Federal Reserve permanece particularmente relevante. Mudanças nas expectativas para os juros americanos interferem na atratividade relativa dos ativos brasileiros e, consequentemente, no fluxo de capital para o país. Juros elevados nos Estados Unidos tendem a aumentar a competição por recursos internacionais, enquanto uma flexibilização monetária pode favorecer moedas de economias emergentes.

Para as empresas, Rodrigo Xavier, economista e CEO da Oz Câmbio, considera que tentar antecipar o resultado eleitoral ou o nível exato do dólar representa uma estratégia diferente da gestão efetiva do risco cambial. O foco, segundo ele, deve estar na exposição financeira do negócio e na capacidade de absorver oscilações da moeda sem comprometer margens.

“Para uma empresa, o objetivo não deve ser acertar quem vai vencer a eleição ou qual será a cotação do dólar em outubro. O que importa é entender quanto da margem está exposta, quando essa exposição se materializa e qual oscilação o negócio consegue absorver”, afirma Xavier.

A recomendação é especialmente relevante para importadores, exportadores e companhias com dívidas, insumos ou contratos indexados ao dólar. Uma valorização rápida da moeda americana pode elevar custos antes que a empresa consiga repassá-los aos preços, comprimindo a rentabilidade da operação.

Nesse contexto, Xavier defende que as companhias estabeleçam previamente faixas cambiais e gatilhos para contratação de proteção. A estratégia permite distribuir decisões ao longo do tempo e reduz a necessidade de realizar operações justamente nos momentos de maior volatilidade.

A eleição acrescenta, portanto, uma nova fonte de oscilação ao câmbio, mas não elimina os fatores externos que tradicionalmente influenciam o real. Para empresas expostas ao dólar, a consequência prática é a necessidade de separar expectativa política de gestão financeira: mais do que prever o resultado das urnas, o desafio será preservar margens e fluxo de caixa caso o câmbio se movimente em qualquer direção.

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