Um registro eletrônico preservado dentro de um contrato apreendido pela Polícia Federal acrescentou um novo elemento às investigações relacionadas ao Banco Master. Metadados do arquivo atribuem ao perfil denominado “Ministro Alexandre de Moraes” uma edição feita na minuta do acordo de prestação de serviços advocatícios firmado entre o banco de Daniel Vorcaro e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
O contrato previa pagamentos de R$ 3 milhões líquidos por mês durante 36 meses. Como o acordo determinava que os impostos não seriam descontados desse valor, cada parcela representava desembolso bruto de aproximadamente R$ 3,65 milhões, levando o custo potencial da contratação a R$ 131,27 milhões.
As informações foram reveladas pelo Estadão a partir de documentos da investigação obtidos pela publicação. Alexandre de Moraes foi procurado, mas não se manifestou. A defesa de Daniel Vorcaro também não apresentou posicionamento sobre a revelação.

A relevância do novo material está na cronologia registrada pelos documentos. As mensagens recuperadas do celular de Vorcaro mostram que as negociações sobre o contrato ocorreram diretamente entre o banqueiro e Viviane. Os metadados indicam que, durante esse processo, uma das versões também foi aberta e modificada por um perfil do Office 365 identificado com o nome do ministro.
A sequência começa em 11 de janeiro de 2024. Às 17h23, Viviane enviou diretamente de seu celular pessoal uma minuta do contrato para Vorcaro. Na mensagem, informou que encaminhava o documento para análise e se colocou à disposição para eventuais esclarecimentos.

O banqueiro não devolveu o arquivo imediatamente. Quatro dias depois, em 15 de janeiro, às 21h22, Vorcaro encaminhou a minuta novamente a Viviane, já com marcas de revisão. Ele informou que havia sido acrescentada apenas a cláusula I.3 e perguntou se a alteração estava adequada para que as partes avançassem para a assinatura.
É justamente depois desse momento que aparece o registro relacionado a Moraes.
Segundo os metadados armazenados no próprio arquivo, às 23h04 daquele 15 de janeiro — aproximadamente uma hora e 40 minutos após Vorcaro devolver a minuta — o documento foi modificado no ambiente do Office 365 utilizado pelo ministro. O perfil associado à alteração aparece identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Esse registro é diferente da autoria original do documento. Nas propriedades do arquivo analisado, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, aparece como autor. O nome de Moraes surge associado à edição posterior registrada no histórico técnico do arquivo.

Metadados são informações incorporadas aos documentos eletrônicos e podem registrar elementos como autor, datas, horários e perfis associados a determinadas modificações. No caso analisado, foi justamente a preservação dessas informações que permitiu reconstruir parte do caminho percorrido pela minuta.
O dado técnico atribui a alteração ao perfil identificado com o nome do ministro, mas não permite, por si só, determinar quais trechos foram pessoalmente escritos por Moraes, a natureza exata das modificações ou em que contexto o arquivo foi acessado. Esses pontos são relevantes para distinguir o registro eletrônico das conclusões que eventualmente poderão ser extraídas dele pela investigação.

Antes dessa edição, a equipe jurídica ligada a Vorcaro também havia trabalhado na minuta. Segundo os documentos da apuração, as modificações do lado do banqueiro foram conduzidas pelo advogado Leonardo Palhares.
Palhares tornou-se posteriormente alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em março de 2026. Ele passou a ser investigado sob suspeita de envolvimento no pagamento de propina aos então diretores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Belinne Santana. Os citados negam irregularidades.
Dois dias depois do registro atribuído ao perfil de Moraes, a negociação do contrato avançou. Em 17 de janeiro de 2024, às 10h09, Viviane enviou uma nova versão a Vorcaro. Nas mensagens recuperadas, ela encaminhou a minuta ao banqueiro e informou que aquela era a versão a ser considerada pelas partes.
O documento manteve a estrutura financeira que transformaria o contrato em uma operação superior a R$ 100 milhões.
O escritório receberia 36 parcelas mensais e consecutivas de R$ 3 milhões líquidos, somando R$ 108 milhões líquidos ao longo dos três anos previstos. A cláusula 11 estabelecia, contudo, que esse valor deveria chegar integralmente ao escritório, sem a redução provocada pelos tributos.
Com a incidência tributária incorporada ao custo do contratante, cada parcela bruta passava a R$ 3.646.529,77. Multiplicado pelos 36 pagamentos previstos, o compromisso financeiro do Banco Master poderia atingir R$ 131.274.351,72.
A documentação recuperada também permite acompanhar como as partes passaram da negociação do conteúdo para a formalização do contrato.
Em 22 de janeiro, cinco dias depois de receber a nova versão, Vorcaro procurou Viviane para saber como deveria proceder com a assinatura. O banqueiro perguntou se o escritório preferia assinatura eletrônica ou o envio de vias físicas já assinadas.
Viviane respondeu na manhã de 23 de janeiro. Disse que estava fora do Brasil naquela semana e orientou o banqueiro a enviar as vias físicas para Guilherme Benazzi, administrador do escritório e justamente a pessoa que aparece nos metadados como autor original do arquivo.
A advogada fez ainda uma solicitação específica sobre a forma de envio: pediu que o documento fosse encaminhado em envelope lacrado e identificado como confidencial.
Vorcaro concordou e pediu o endereço. Viviane informou como destino a Rua Campos Bicudo, 98, no Itaim Bibi, em São Paulo.
O contrato foi assinado por Daniel Vorcaro naquele mesmo dia, 23 de janeiro, às 15h15, conforme a documentação obtida na investigação.
Uma versão com as assinaturas do controlador do Banco Master foi posteriormente encaminhada ao banqueiro por Fabiano Zettel, empresário próximo a Vorcaro e casado com Natalia Vorcaro, irmã do banqueiro.
Zettel também passou posteriormente a figurar na Operação Compliance Zero. Ele foi preso em março de 2026, durante a terceira fase da investigação, e nega participação nas fraudes investigadas.
Mesmo depois da assinatura física, as conversas sobre a formalização continuaram.
Em 24 de janeiro, Viviane procurou Vorcaro novamente e pediu que o contrato também fosse enviado com assinatura digital. O objetivo, segundo a troca de mensagens, era permitir que o escritório assinasse eletronicamente o mesmo arquivo.
Vorcaro respondeu que poderia providenciar o procedimento e perguntou se deveria encaminhar o documento por uma plataforma de assinatura eletrônica. Viviane concordou.
A sequência de mensagens é relevante porque mostra que a contratação não ficou restrita à circulação informal de uma minuta. Houve negociação, revisão do arquivo, definição da forma de assinatura, envio de vias físicas, preocupação com a confidencialidade e posterior formalização digital.
E o contrato chegou a produzir efeitos financeiros durante quase dois anos.
Documentos fiscais do Banco Master encaminhados em abril à CPI do Crime Organizado, no Senado, indicaram pagamentos de R$ 80.223.653,84 ao escritório de Viviane entre 2024 e 2025.
Segundo os registros obtidos pela comissão, foram realizadas 22 transferências de aproximadamente R$ 3,65 milhões cada, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. O valor é compatível com a parcela bruta mensal prevista no contrato.
Quando esses dados fiscais vieram a público, o escritório Barci de Moraes contestou as informações. Em manifestação divulgada na ocasião, afirmou não confirmar dados que classificou como incorretos e vazados ilicitamente e ressaltou que informações fiscais são protegidas por sigilo.
Os pagamentos só teriam sido interrompidos no momento em que a crise do Banco Master avançou para uma intervenção definitiva das autoridades.
Em 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero. Segundo as informações da investigação, ele se preparava para embarcar com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
No mesmo período, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. A partir daí, os pagamentos previstos no contrato com o escritório deixaram de ser realizados.
A apreensão do celular de Vorcaro nessa primeira fase da operação foi justamente o que permitiu aos investigadores recuperar as conversas mantidas pelo banqueiro e os arquivos relacionados à contratação.
É nesse conjunto documental que aparece agora o registro eletrônico atribuído ao perfil “Ministro Alexandre de Moraes”.
A descoberta acrescenta uma dimensão diferente às informações que já eram conhecidas sobre o contrato. Até então, as mensagens divulgadas mostravam principalmente uma interlocução direta entre Viviane e Vorcaro para discutir a minuta, as alterações, a assinatura e a forma de envio do documento.
Os metadados introduzem a indicação de que uma das versões devolvidas pelo banqueiro passou pelo perfil identificado com o nome de Alexandre de Moraes antes de o documento final voltar a Vorcaro.
A sequência temporal registrada no arquivo é objetiva: Vorcaro devolveu a minuta revisada às 21h22 de 15 de janeiro; às 23h04 daquele mesmo dia aparece a modificação associada ao perfil “Ministro Alexandre de Moraes”; e, na manhã de 17 de janeiro, Viviane encaminhou novamente o contrato ao banqueiro.
O que ainda não está esclarecido publicamente é exatamente o que foi alterado nessa etapa.
Também não foi informado se a investigação produziu outros elementos capazes de demonstrar quem operava o perfil no momento da modificação ou se houve análise pericial adicional para atribuir materialmente a edição ao ministro, além da identificação registrada nos metadados do Office 365.
Essas distinções são importantes porque o registro de um perfil em um arquivo eletrônico constitui um elemento documental, mas a definição de eventual responsabilidade, participação ou irregularidade depende do conjunto de provas e da avaliação das autoridades responsáveis pela investigação.
O novo material surge ainda enquanto a Operação Compliance Zero continua produzindo desdobramentos relacionados ao Banco Master, seus controladores, pessoas próximas a Vorcaro e agentes que mantiveram relações comerciais ou profissionais com o grupo.
No caso específico do contrato com o escritório Barci de Moraes, a investigação já reúne diferentes camadas de documentação: as mensagens trocadas entre Viviane e Vorcaro, versões sucessivas da minuta, registros técnicos do arquivo, informações sobre sua assinatura e dados referentes aos pagamentos realizados pelo banco.










